Os ilhéus de Quemoy e Matsu

Pensamentos sobre informação de massas

Quando eu era garoto, muitas vezes no noticiário da rádio (ainda não havia TV) aparecia a notícia de que a artilharia da China comunista, através do Estreito da Formosa, "bombardeou os ilhéus de Quemoy e Matsu", pertencentes à Formosa, ou China nacionalista. Esta notícia, creio, repetiu-se quase diariamente durante bastante tempo. Depois a crise entre as duas Chinas amainou e os dois ilhéus voltaram a cair na obscuridade, mas os nomes ficaram-me na memória.


O porta-aviões norte-americano Lexington com um navio de apoio e um destroyer perto da Formosa durante a segunda crise do Estreito de Taiwan (Wikipédia)

Porque eram bombardeados os ilhéus? Não sei se alguém apareceu a explicar que aquilo tinha a ver com as tensões da Guerra Fria, ou que era apenas um exercício fútil de maldade comunista, mas tornou-se para mim o paradigma da notícia absurda e repetitiva que acompanha cada crise1.

Noutros anos outros nomes estranhos se repetiam nas notícias. 1961, Angola, era Nambuangongo e Maquela do Zombo2. Depois passou a ser algures no Norte de Angola. No Vietname, a via de Ho Chi Min3 era bombardeada todos os dias. Depois, nas notícias clandestinas, o massacre de Wiriamu4. Onde é Wiriamu? No sítio onde houve o massacre.

Zoom temporal para hoje. Bombista suicida mata não sei quantos no Iraque. Quase todos os dias. Dirigente iraniano recusa parar o programa nuclear. Quase todos os dias. Pais indignados recusam fecho de escola. Quase todos os dias.

Que perspectivas no Iraque? Não sei. O que se pode esperar da situação no Irão? Não sei. Quantas escolas vão ser fechadas, quanto dinheiro será poupado e onde será empregue; que consequências isso terá para a demografia do interior do País? Não faço ideia5.

Onde quero eu chegar com estes exemplos? Aqui:

Dizem-te a verdade, mas na verdade não te dizem nada.

Informação bruta, sem contexto, sem pano de fundo, que estimula a tua indiferença, mas onde nunca falta o dramatismo e o interesse humano. O sangue no alcatrão, os chinelos abandonados, as mulheres a chorar os mortos.

Morreram mais este ano que no ano passado? Em que zonas? Quem apoia o terrorismo, quem o combate? Há zonas onde se vive em paz? Há zonas onde as autoridades não podem ir? Que controle tem o governo? Que pensam e fazem os vários grupos sociais e políticos? E as tropas de ocupação?

Claro que se pode tentar saber a resposta a essas perguntas. Pode-se ir a uns sites e coligir opiniões contraditórias sobre o assunto. Ver uma boa peça de fundo que aparece de vez em quando, talvez na BBC World News, no Monde ou no El Pais. Mas mesmo nesses bons canais de informação as boas peças são raras - e, claro, tens de entender inglês, francês ou castelhano…  ↑ 

Corta e cola

Nunca fui jornalista, mas nos anos 80 exerci algumas funções em jornais. De uma das vezes, tratava do arquivo. Davam-me os jornais do dia e eu recortava as notícias e arquivava-as por assuntos. Hoje há arquivos digitais e motores de busca, mas nessa altura usavam-se esses meios primitivos. Como tinha acesso cada dia a todos os jornais e comparava todas as notícias, dei-me conta rapidamente que eram as mesmas de jornal para jornal. Mais: havia frases e parágrafos inteiros exactamente iguais.

O mistério esclareceu-se no meu emprego seguinte, que foi o de revisor: como tinha de corrigir as provas pelo original, percebi que muitos dos originais, em vez de estarem dactilografados pelo jornalista (eles escreviam ainda à máquina), eram folhas de papel a que tinham sido colados pedaços de telexes das agências. Aqui e ali o jornalista garatujava uma sequência de frase para disfarçar os cortes, às vezes corrigia um termo ou uma expressão. E pronto.

Num cubículo barulhento, alinhavam-se seis ou sete máquinas de telex, sempre a trabalhar (taça-taca-taca), cada uma ligada à sua agência: Lusa, AP, Reuters, France-Presse… Numa máquina à parte, a telecopiadora, já se recebiam fotos.

Esta forma de jornalismo era desprezada pelos profissionais, que lhe chamavam corta e cola. Mas todos a usavam. Reduzia os custos para o jornal e minorava o esforço do jornalista. Quase todo o noticiário internacional e a maior parte do noticiário nacional era assim confeccionado.

O público, esse, não tinha ideia nenhuma do que se passava.

Hoje o telex é um artigo de arqueologia industrial e os despachos das agências são difundidos via e-mail ou páginas de acesso restrito a assinantes. O corta e cola faz-se com o teclado e o rato. Mas não tenho dúvida nenhuma de que a parte das agências na informação diária é hoje ainda mais importante que então.

Não pensem que estou a falar só de informação escrita. Quando o apresentador do telejornal lê uma notícia, está a ler o quê? Quase de certeza um despacho de agência. Mesmo quando o repórter se desloca ao local do evento e, numa pose dramática, encolhido no seu anoraque e com os cabelos despenteados, nos diz as últimas do local, o mais certo é estar a recitar notícias de agência que lhe foram enviadas pela redacção.

Muitos jornalistas criticam este truque, claro, mas acabam por ter que recorrer a ele quando, por exemplo, se vêem numa zona de conflito, sem liberdade de movimentos, coagidos pelas forças no local e têm que enfrentar uma transmissão em directo sem terem verdadeiramente nada para dizer.  ↑ 

Conteúdo e formato

Assim, a maioria da informação a que temos acesso é fornecida pelas agências, que funcionam como uma espécie de grossistas da informação (é claro que há canais suficientemente grandes para serem os seus próprios grossistas, como a CNN). Obtêm os factos, através de estruturas de colecção de informação, que têm uma componente relativamente pequena de reportagem e mais de correspondentes e estruturas regionais, onde a informação converge, muitas vezes sem ser preciso ir buscá-la. Usam intensivamente os telefones, as agendas e o outsourcing.

Não se preocupam com o formato final da informação, apenas com os factos ou com as imagens, o que sai muito mais barato e é mais eficiente.

Um exemplo: se a equipa da Associated Press de Tel-Aviv quer saber o que se passou hoje na Cisjordânia, basta-lhe telefonar para o Abdul, que vive na zona e trabalha nos jornais locais, para fazer um relato; contactar o Ahmed, que fotografa casamentos, para tirar umas fotos e filmar umas sequências de vídeo. Os dois trabalham a preços de saldo.

Não precisa de deslocar uma vedeta da reportagem internacional, paga a peso de ouro, para aparecer na TV. A qual vedeta teria que contratar alguém como o Abdul ou o Ahmed para se poder simplesmente mover naquele cenário…

Se uma TV julgar que o que se passa na Cisjordânia é suficientemente importante, manda lá um enviado internacional, não para saber coisas, mas para assegurar um formato televisivo credível, quer dizer, para fingir que foi lá investigar. Esse enviado contrata uma empresa de telecomunicações local que monta um cenário de directo que seja reconhecível como cor local (a cúpula da Mesquita Al Aksa, o muro da Cisjordânia, etc.) e aparece a debitar o que o Abdul escreveu, editado pelo desk de Tel-Aviv, inserindo uns feeds de vídeo captados pelo Ahmed e também editados na sede regional.

O enviado nunca se esquece de terminar a intervenção com o seu nome e o local: "Fulano de Tal - Ramallah!" Para o caso de estarmos a vê-lo num local barulhento, a assinatura e o local aparecem em rodapé. Mas raramente se fala na agência e nunca no Abdul ou no Ahmed.

Nós papamos isto tudo como os parolos que realmente somos.

A informação-espectáculo funciona como o teatro. Só vemos os actores, nunca os maquinistas, os encenadores, os contra-regras, os pintores de cenários. Mas no teatro, nós sabemos que aquilo é fingido, as pessoas que aparecem à boca de cena são actores e aceitamos (desejamos) a mentira como parte essencial da arte.

Na informação-espectáculo, quem se afirma jornalista é quase sempre um actor; quem produz realmente informação encontra-se muito afastado do público, nas profundezas da maquinaria de cena.

A produção da informação encontra-se largamente separada da encenação da informação. Mas o público é levado a crer que a encenação é a realidade.

Pergunta incómoda: será que o público não sabe ou não quer saber? Será mais fácil de aceitar para o púbico americano ou europeu que o herói-enviado especial vai aos sítios e descobre imediatamente os factos, em vez de ter de encarar o sr. Abdul a explicar o que se passa na terra dele? O enviado especial veste fato e gravata, penteia-se bem e faz um sorriso Colgate; o Abdul é capaz de aparecer de kafieh, com um enorme bigode, uma pele demasiado trigueira, um nariz de forma errada e a falar um inglês cheio de sotaque. Vá-se lá confiar num tipo assim!

Talvez a suspensão da incredulidade seja voluntária.  ↑ 

O império do formato

No espectáculo da informação, como noutros espectáculos mediáticos, impera o formato. A guerra pelas audiências é feroz e o risco tem de ser limitado. Portanto, encena-se o que se sabe de antemão que dará resultado. A arte da agarrar audiências é largamente empírica. Ninguém sabe realmente porque certas coisas resultam e outras falham. A solução é fixar-se nas coisas que resultam. Os produtores de TV e media não são pouco criativos; o que eles têm é imenso medo de falhar.

Praticamente todos os noticiários televisivos seguem o mesmo formato. No meio está o(a) apresentador(a), pivot ou anchorman(woman), rodeado por uma secretária gigantesca e cheia de refegos, luzes, múltiplos ecrãs, às vezes uma pretensa redacção em fundo. Lê um teleponto para não deixar de olhar-nos nos olhos enquanto fala. É ele que parece dirigir todo o espectáculo do seu lugar, introduzindo feeds informativos, ligando a enviados especiais, chamando e despedindo comentadores e entrevistados.

Na verdade é inteiramente telecomandado pelo realizador, mas do ponto de vista do espectáculo telejornal, a realização não existe.

Mas as pessoas que querem entender o sentido que fazem as notícias não podem ser esquecidas, pois também fazem parte do mercado. Para esses há um outro formato, o do comentador. É um comunicador altamente especializado, mas não me refiro aos conhecimentos que tem. A sua especialização é ao nível da comunicação, onde tem a arte de dizer duas ou três banalidades muito rápidas sobre qualquer assunto, usando termos comuns que toda a gente percebe e tendo o máximo cuidado em não maçar ninguém.

Mas um comentário não passa disso mesmo. Não resolve a falta de informação inteligentemente estruturada, limita-se apenas a pôr uma cereja vistosa em cima de um bolo de fraca qualidade.

Os órgãos de informação têm pouco estímulo para processarem a informação. É muito mais segura uma posição de neutralidade. Assim, para difusão de ideias, recorrem ainda a um outro formato, o debate. As ideias expostas são da responsabilidade dos intervenientes, o jornalista limita-se a moderar, quer dizer, a formatar.

Tanto aqui como na entrevista, outro formato, a vontade do jornalista formatar a discussão não tem nada de perverso: ele limita-se a procurar manter o interesse do espectador. Quase sempre, para o conseguir, fixa-se no pessoal, no acessório, imediato e bombástico e desencoraja, de forma rude se for necessário, toda a expressão de pensamento independentemente por parte dos intervenientes, com medo que se tornem maçadores.

Creio que se pode considerar honestamente que qualquer pessoa que pretenda exprimir-se com sucesso em TV tem que ser um profissional deste meio, ou tornar-se num. O meio é realmente muito sui generis e tem regras muito próprias. De resto, isso não tem nada de surpreendente. Quem quer exprimir-se na imprensa escrita tem que saber escrever, não é? (A qualidade do que se escreve hoje em dia é assunto para uma outra discussão.)

O formato existe, parece inevitável. É natural que os profissionais discutam furiosamente os formatos, nos seus círculos restritos e nos seus meios de informação especializados, mas quase nada dessa discussão passa para fora.

O público passa imensas horas das suas vidas a consumir formatos que nunca são explícitos.

O público devia ser mais culto sobre estes assuntos. Isso dava-lhe seguramente mais poder…

Referi aqui apenas os formatos de informação televisiva. Os formatos do entertaining, das grelhas e os dos outros media são demasiado assunto para agora.  ↑ 

Teorias da conspiração

Há imensas teorias da conspiração sobre a estrutura internacional da informação. Muitos afirmam que as grandes organizações de media são instrumentos de controlo político ou ideológico mundial. Eu não acredito em nada disso. A razão é simples: dinheiro.

Há tempos encontrei um site de críticos da cadeia Mac Donald que, num acesso de honesta boa vontade perante o inimigo, explicava que o boato de que os hamburgers deles eram feitos de minhocas era falso por uma razão muito simples: as minhocas são mais caras que a carne de vaca!

Do mesmo modo, há que considerar que as organizações informativas são empresas orientadas pelo lucro e fortemente competitivas. Prescindir de difundir informação potencialmente lucrativa para cumprir uma agenda política é um contra-senso; inversamente, usar qualquer critério de actuação que não seja captar o máximo de atenção do público é diminuir a sua competitividade.

Os adeptos da teoria da conspiração são muitas vezes pessoas com pontos de vista políticos muito minoritários. Como lhes custa a crer que aquilo que acham correcto é espontaneamente rejeitado pela maioria dos seus concidadãos, têm tendência a pensar que essa situação resulta de uma atitude hostil deliberada dos media.

Os comunistas, por exemplo, nunca perdem uma ocasião de queixar-se do tratamento discriminatório dos media, mas como sabe toda a gente que não é comunista, a maioria do público pura e simplesmente não os suporta. Os jornalistas, naturalmente, sabem disso e mencionam os comunistas apenas quando não podem evitar, não vá o espectador zapar para o canal do lado, ou virar os olhos para o artigo seguinte. Quero eu dizer, quem marginaliza os comunistas não são os media mas sim o público.

Isto é difícil de engolir para um comunista, claro. Entra a teoria da conspiração.

Há um outro factor que desmente a teoria da conspiração, que é a eficiência relativa das estruturas noticiosas comerciais a coligir e difundir informação, comparadas com as estruturas governamentais. Na generalidade dos casos, a informação da CNN é mais rápida e eficaz que a da CIA, e menos sujeita a pressões políticas. Vários conselheiros de segurança nacional já confessaram que vêem a CNN antes de brifar o presidente americano e sujeitam os documentos secretos a uma comparação crítica com o canal noticioso.

Vejamos um caso claro de manipulação: a filmagem de uma suposta nultidão a tentar derrubar a estátua de Saddam Hussein, no fim da tomada de Bagdad pelos EUA. Na altura pareceu uma cena impressionante, com várias dezenas de iraquianos a atacar a estátua, GIs em blindados a assistir impassíveis, depois um veículo americano a ajudar a puxar a estátua, por fim os populates a bater com os chinelos na estátua, gesto de insulto na cultura local. Todos os principais canais mundiais a filmar em directo.

Depois veio-se a saber que o dispositivo americano tinha isolado a praça vários quarteirões em redor e que os supostos populares eram uma equipa do lacaio Ahmed Chalabi que tinha chegado de avião na noite anterior.

A questão é: os media prestaram-se a isto, ou foram também eles enganados? Penso que foram também enganados. Alguns dos comentadores demonstraram genuína emoção, em particular o repórter da Sky News. Se tivessem sabido, a tentação de ganhar uma caixa gigante ao denunciar a manobra teria sido demasiada e os organizadores da produção mediática, por parte das forças americanas, nunca teriam corrido esse risco.  ↑ 

A caixa preta

Na teoria da informação, há os conceitos de caixa preta e caixa transparente. As duas caixas são mecanismos de processamento de dados. Os dados entram de um lado, acontece qualquer coisa no interior da caixa e do outro lado os dados aparecem modificados. Na caixa preta, nós não podemos saber o que acontece no seu interior, só podemos ver a diferença entre o que entrou e saiu. Pelo contrário, na caixa transparente, temos oportunidade de investigar as operações a que os dados foram sujeitos dentro da caixa.

Nos meios de informação de massa, se bem que nada nos proíba de saber o que se passa no seu interior, a verdade é que somos activamente desencorajados de nos interessarmos por esse assunto. Os órgãos de informação comportam-se efectivamente como caixas pretas.

Nos telejornais actuais usa-se quase sempre a imagem fictícia de uma sala de redacção por detrás do apresentador, com computadores e pessoas aparentemente comuns que de vez em quando atravessam o cenário com um papel na mão. Mas é tudo show off.

Quem já viu uma sala de redacção sabe que não é nada daquilo. Nunca está ninguém a trabalhar naqueles computadores (se estivesse, teria de ser um actor também). As câmaras e os seus operadores só aparecem no fim e no princípio, como silhuetas, quando as luzes se apagam e a objectiva se alarga para nos impressionar com os recursos técnicos que convergem para o apresentador. Tudo show off!

Como se obteve a informação? Nada (lembram-se do exemplo do Abdul e do Ahmed). Como se seleccionou o que era importante e o que não tinha interesse? Nem pensar.

Por outro lado, cada órgão de informação pode ser muito aberto e democrático quanto à informação externa, mas é inteiramente totalitário no que respeita à sua informação interna. Toda a informação desfavorável é suprimida, toda a informação favorável é transformada em propaganda.

Suponhamos que o director de programas da TVI vai der despedido porque o share está a baixar. Quem falará nisso? Os canais concorrentes. A TVI só falará nisso quando se tratar de anunciar a contratação de um novo e magnífico director de programas, com uma nova grelha super interessante que você não vai querer perder. Atenção, não tenho nada contra a TVI, podia trocar-se de posição com qualquer dos outros canais.

Antes do 25 de Abril é que a informação era assim. Ou era suprimida, ou era propaganda. E o cidadão era obrigado a ler nas entrelinhas da propaganda, para tentar perceber o que tinha sido suprimido ou o que é que a propaganda pretendia tapar.

Esta situação é desonesta, por duas razões. Em primeiro lugar, muitas vezes o que se passa dentro de um órgão de informação é uma notícia de importância nacional. Porque é que um conflito numa grande empresa é noticiado, mas se for num órgão de informação é omitido?

Em segundo lugar, para exercer funções de crítica e vigilância sobre os media, os cidadãos precisam saber o que se passa dentro deles. A "imprensa" é considerada o quarto poder, mas é um poder largamente clandestino, apesar de se mostrar ostensivamente aos olhos de todos.

Quase todos os jornalistas se mostrariam horrorizados perante a perspectiva de ver as suas idas e vindas, as suas motivações, métodos de trabalho, os seus erros e sucessos escrutinados pelo público. Mas é isso que acontece (devia acontecer) com quem exerce o poder numa sociedade democrática.

Não há só a vaidade de ser o quarto poder, devia haver também a responsabilidade de exercê-lo.

E isso leva-nos à outra questão:  ↑ 

Deontologia ou marketing?

Muitos jornalistas gostam de discutir a sua profissão, em privado ou em público, em termos de deontologia. A deontologia seria um conjunto de regras morais, largamente auto-impostas, ou impostas pela pressão dos pares e finalmente fiscalizada por uma ordem profissional. A analogia com os médicos é evidente.

Mas um jornalista não tem nada que ver com um médico. Os médicos, por mexerem directamente na vida e na saúde das pessoas, auto-impuseram-se há séculos um código de conduta moral rígido, talvez como única maneira de assegurarem a confiança dos seus pacientes. Ao confiar a sua vida ao médico, o paciente confia também implicitamente no código ético da sua profissão. E as questões éticas dos médicos, comparadas com outras profissões, têm uma simplicidade brutal: o médico tem de fazer tudo para manter o paciente vivo e com a melhor saúde possível, não pode discriminar entre um ser humano e outro. Qualquer desvio ético é severamente punido.

Bem, o jornalista tem de dizer a verdade. É simples.

Os filósofos andam a discutir o que é a verdade há séculos. Mas a questão não é essa. Tenho a certeza que 99% dos jornalistas não mentem, ou mentem muito raramente, no exercício da sua profissão. Não dizem toda a verdade, pois não. Mas quem diabo quer saber toda a verdade? Eu, por mim, só estou interessado em saber o que me interessa. E tu, leitor, também, mas se calhar o que te interessa não é o mesmo que a mim.

Quanto ao uso da profissão para caluniar pessoas ou para invadir a sua privacidade, são, na minha opinião, questões de direito comum que dizem respeito a todos os cidadãos e não pertencem, de forma nenhuma, à ética privada dos jornalistas. Quer dizer que, se um profissional de informação caluniar alguém, é culpado como qualquer cidadão, embora o facto de ser jornalista possa ser considerado uma agravante.

Um técnico de informática que copia e divulga ilicitamente uma base de dados pessoais também é culpado de invasão da privacidade, sem ser jornalista.

A deontologia jornalística é uma falsa questão. Por um lado, impõe tão pouca coisa que todos os profissionais são quase automaticamente uns santos; por outro pressupõe uma liberdade pessoal ética que os jornalistas quase nunca têm.

Eu explico: quem manda o jornalista fazer uma reportagem? O chefe de redacção. Quem decide a agenda do jornalista? O copy desk, o chefe de redacção. Quem tem a última palavra sobre o que o jornalista escreveu? You bet!

Bem, o chefe de redacção também é um jornalista, mas responde perante o director, que responde perante o… conselho de administração. Os conselhos de redacção podem ter algum poder, claro, mas quem manda em última análise nesta gente toda?

O mercado.

Toda a conversa fiada sobre deontologia esconde a realidade crua: os profissionais de informação, os órgãos de informação vendem informação.

Todos eles só podem sobreviver e sustentar a família se o público continuar a prestar atenção ao que dizem ou mostram. O resto é conversa.

Se o público não quer saber, o jornalista não tem qualquer hipótese de informá-lo. Porque é o público que financia a informação, ora pagando para saber, ou pagando indirectamente como alvo de publicidade.

Mesmo que a informação seja financiada por dinheiro público, se for difundida sem ninguém lhe prestar atenção, é como se nada tivesse acontecido. Hoje em dia a informação não tem qualquer hipótese de impor-se à atenção do público. Não há canais únicos. Se perdes a atenção do espectador, zap!

O bom do chefe de redacção censura o jornalista ou exige que ele cubra certos assuntos, não porque esteja receoso do poder político, mas sim porque vive com a espada de Dâmocles do share sobre a sua cabeça. O share baixa e adeus director. Aliás, adeus jornalista também.

O marketing de informação é uma coisa séria. Tem regras muito específicas, porque a informação, enquanto mercadoria, não se comporta como uma garrafa de Coca-Cola ou um carro.

Enquanto ninguém a conhece, tem valor potencial, mas nenhum valor real. Quando é descoberta e suscita a curiosidade, pode ter um valor imenso. Sabida, desvaloriza-se. Esquecida, volta a valorizar-se, como material para criar mais informação.

O valor da informação vem da curiosidade que suscita. A arte do marketeer de informação é adivinhar quais os assuntos que suscitam a curiosidade dos públicos que lhe interessam e dar-lhes destaque, além de adivinhar quando eles estão a desinteressar-se de um assunto.

Sim, públicos e não público. Há muitos.

Imagina a primeira página do Correio da Manhã. A manchete é o género de assunto que eu posso introduzir quando estou a tomar a bica da manhã no café do bairro: "CRIMINALIDADE ESTÁ A AUMENTAR". Dá pano para mangas. Tens que sair para o trabalho e a conversa ainda ferve.

Agora, se eu disser, por exemplo: "Cavaco Silva vai visitar a Madeira", talvez o dono do café me responda "Ai é?", mas só porque se sente obrigado a responder a conversas idiotas dos clientes.

Noutros círculos, o tema Cavaco pode dar pano para mangas e o da criminalidade suscitar desinteresse. Vareia, não é?  ↑ 

Alternativas

Portanto, não adianta nada criticar o gosto do público. Ele manda.

Não adianta nada fazer um ar de conselheiro Acácio e falar em deontologia. O século dezanove acabou há 106 anos.

Temos de assumir a informação como um bem comercial, com regras próprias. Para ter boa informação, temos de ter bom marketing de informação.

É fútil lutar contra os formatos televisivos. Eles são inerentes ao meio. Mas há uma certa rigidez e falta de imaginação na forma como são aplicados. Muitos dos maiores sucessos de televisão correspondem a rupturas de formato, ou seja, à criação de novos formatos para explorar novas possibilidades.

O Zip-Zip, de Raul Solnado e Fialho Gouveia, nos anos 70, foi uma ruptura no formato do sitcom. O Serafim Saudade, de Herman José, nos anos 90, foi uma ruptura no formato do programa de entertainment.

Até a porcaria do Big Brother teve que ser inventado de raiz, algures, por um criador de formatos maléfico.

A criação das estações de TV por cabo CNN ou MTV correspondeu a rupturas com o próprio formato da estação de TV.

Havendo menos rigidez e mais participação do público, é provável que novas possibilidades apareçam.

Na minha opinião, existe um mercado interessante para a informação de fundo, contextualizada. Não é um mercado generalista, claro. Mas se fazem revistas para tipos interessados na caça às perdizes, porque não criar informação para os tipos interessados em perceber o que realmente se passa no mundo? Falta descobrir os formatos certos!

Na televisão por cabo proliferam os canais temáticos. Em alguns desses canais predomina o formato reportagem, em que um dado assunto é tratado com detalhe do princípio ao fim, como nos canais História, Biografia, Explorer, etc. Sou mais cliente desses formatos do que da TV tradicional, mas tem sido para mim uma surpresa constatar que alguns dos meus amigos, com gostos bem menos elitistas, também os apreciam e desprezam a TV tradicional.

O canais noticiosos portugueses por cabo têm um défice desse tipo de informação, possivelmente porque sai mais cara e exige mais preparação do que os telejormais, debates e entrevistas com que preenchem a programação – e talvez porque copiam o formato CNN.

A peça informativa extensa, com inquérito estruturado à volta das várias questões que emergem de um dado tópico, ouvindo os vários actores, acareando-os e fornecendo ao mesmo tempo informação independente que os enquadre, é insubstituível no formato televisivo. E o mercado existe.  ↑ 

Meta-informação

Onde eu penso que se deve inovar a sério é na informação sobre a informação.

Como vender a informação sobre a informação? Teria que haver um veículo que furasse a muralha da omertà dos jornalistas. Tinha que começar por ser uma coisa pequena, mas, obviamente, muito badalada. Teria que ser iniciada por jornalistas dissidentes, com dificuldade em aceder ou manter-se no mainstream. Talvez na blogosfera. Uma vez furado o dique, a torrente irromperia.

Quando a sociedade é aberta, o silêncio raramente é opção. Se um órgão de informação tem um assunto incómodo sobre a sua realidade interna para noticiar, o melhor é noticiá-lo, porque mesmo assim os termos serão menos hostis do que se ficar à espera de serem os outros a noticiá-lo.

Um tipo dá um traque, no meio de uma reunião social. Se pensa que os outros vão fingir que não aconteceu nada, cala-se muito bem calado. Se acha que o Joãozinho traquinas vai apontar o dedo e gritar "Olha, aquele senhor cagou-se!", então o melhor é fazer um ar contrito, pedir desculpa e sair apressado para a casa de banho, dando a entender que ficou subitamente mal da tripa. Isto é o que o George Bush chamaria um preemptive strike (ataque preventivo). Minimiza o mal que já está feito, mantendo a iniciativa do seu lado.

Saber o que se passa dentro dos órgãos de informação (os contratos e transferências, as chicotadas psicológicas, as estratégias de mercado, as manobras pelo controlo dos grupos de media) é essencial para o público se tornar mais crítico.

Mais ainda, quais são as estratégias de media dos partidos, dos grupos económicos? Quem as promove? Saber isso é essencial para perceber porque surge em determinado dia determinada notícia...

Um público mais crítico pode ser visto, em termos imediatos, como uma coisa má.

Como na declaração Miranda, tudo o que se souber pode ser usado contra ti.

Mas tudo o que se souber sobre ti é fama. Se for bom, ou mesmo se não for demasiado mau, podes usá-lo em teu proveito.

A informação sobre a informação, ou meta-informação (não confundir com propaganda, relações públicas ou publicidade oculta) é condição para alargar o mercado da informação, torná-lo mais sofisticado, mais aberto, mais abrangente, mais interessante.

E só há informação quando há interesse.  ↑ 


1 Houve duas crises da Guerra Fria à volta dos ilhéus de Quemoy e Matsu, uma em 1955 e outra em 1959. As minhas memórias referem-se à segunda, pois tinha então seis anos. É impossível que me lembre da primeira, pois só tinha dois anos de idade. Em ambos os casos houve bloqueio naval e tentativa de invasão por parte da China continental e ameaças de ataque nuclear por parte dos Estados Unidos. (VOLTAR AO TEXTO)

2 A Guerra Colonial começou em 1961 (tinha eu oito anos), com uma tentativa de assalto a um quartel de polícia, em Luanda, por parte do MPLA. Seguiu-se uma ofensiva com bastantes atrocidades por parte da FNLA, apoiada pelo Congo-Kinshasa (e também pela CIA, diz-se) contra os colonos no Norte de Angola. As poucas tropas e meios que o governo conseguiu de início disponibilizar iniciaram uma ofensiva nessa zona, que culminou com a tomada do reduto da FNLA, em Nambuangongo. Inicialmente estas povoações eram referidas nos comunicados militares, mas pouco depois a informação geográfica quase desapareceu. (VOLTAR AO TEXTO)

3 A Via Ho Chi Min, nomeada em honra do dirigente comunista do Vietname do Norte, não era uma estrada, mas uma seguência de picadas de floresta, armazéns ocultos e túneis em parte dentro do Vietname do Sul e em parte nos vizinhos Laos e Cambodja, por onde passavam os mantimentos e tropas para a guerrilha Vietcong e para as tropas do exército do Vietname do Norte que operavam no Sul. Foi pesadamente bombardeada pelos americanos em certos períodos da guerra do Vietname. Saigão, a capital do Sul, no final da guerra foi renomeada Cidade de Ho Chi Min. (VOLTAR AO TEXTO)

4 Tropas portuguesas e/ou formações paramilitares sob o comando do general Kaulza de Arriaga massacraram populações da pequena missão religiosa de Wiriamu, em Moçambique. Ao contrário de outros massacres, este ganhou fama internacional e desencadeou uma onda de manifestações contra o regime português em toda a Europa, porque os missionários se encarregaram de denunciá-lo em todo o mundo, acabando por ser expulsos de Moçambique. (VOLTAR AO TEXTO)

5 Escolhi alguns títulos constantes dos telejornais na altura em que escrevo este texto, em Maio de 2006. (VOLTAR AO TEXTO)