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Porque acreditamos em Deuses

Andy Thomson

Este vídeo tem dado muito que falar ultimamente. Filmado na Convenção Atheists'09 em Atlanta, Georgia, EUA, em Maio deste ano, e publicado, entre outros lugares, no site de Richard Dawkins e no nosso português Portal Ateu, nele o psiquiatra dr. Andy Thomson explica as bases de uma Neurologia do pensamento religioso.

Trata-se da explicitação dos mecanismos cognitivos criados durante a nossa evolução e de que o pensamento religioso se apodera. Aqui se mostra porque tantas ideias contra-intuitivas (para não dizer disparatadas) da religião são fáceis de aceitar para o comum das pessoas e porque o pensamento céptico exige quase sempre mais esforço.

Como eu sei que muitos dos meus amigos portugas, embora saibam algum inglês, não têm a fluência suficiente para acompanhar esta conferência, resolvi transcrever todos estes 50 minutos de ideias fascinantes em Português. Qualquer erro, já sabem, fui eu. Isto deu-me montes de trabalho, portanto correspondam e façam o favor de ler.

Todas as gravuras aqui mostradas são provenientes do vídeo. — Carlos Cabanita

 

Andy Thomson, "Porque acreditamos em deuses"
— transcrição

Andy Thomson

[O conferencista começa por perguntar à assistência]

Alguém de entre vós, nalgum ponto da sua vida, foi um crente religioso?

[levanta ele próprio o braço no ar. Aparentemente muitos levantam também as mãos]

Claro! A maior parte de nós é-o. Porque é que a minha mente, as vossas mentes, as nossas mentes geram ideias religiosas e nós as aceitamos? Porquê?

O que espero mostrar esta manhã é a resposta a estas questões.

Estamos a chegar perto de uma neurologia cognitiva da crença religiosa, com teorias robustas e provas empíricas.

O meu plano esta manhã é expor-lhes as ideias básicas e depois dar-lhes algumas das provas empíricas. Por fim, terminarei numa nota histórica que ilumina o passado e o presente e, penso eu, nos diz algo sobre o futuro.

Lemnings

Podem pensar na minha palestra da seguinte forma: pretendo fornecer-lhes um canivete suíço [mostra um canivete suíço] de ferramentas que podem levar para as vossas comunidades nos debates que mantém com crentes.

(Agradecimentos vários, em particular a Richard Dawkins e a www.richarddawkins.net)

[cartoon com uma multidão de lemnings prontos a atirar-se à água; um deles, porém, leva uma bóia]

Começamos por Darwin. A evolução explica o desenho e a diversidade das espécies, mas também explica o desenho e a arquitectura da mente humana, e dentro dessa arquitectura, as peças que geram a crença religiosa.

Um organismo é uma colecção de dispositivos para resolver problemas – adaptações – que se formaram por selecção natural através do tempo evolucionário para promover, de uma qualquer forma específica, a sobrevivência dos genes que dirigem a sua construção. (Symons, 2004)

A evolução darwiniana, combinada com a genética, leva a uma definição moderna da evolução: um organismo é uma colecção de dispositivos para resolver problemas – adaptações – que se formaram por selecção natural através do tempo evolucionário para promover, de uma qualquer forma específica, a sobrevivência dos genes que dirigem a sua construção. (Symons, 2004)

Olhemos para nós próprios: o coração resolve o problema de bombear o sangue; a hemoglobina resolve o problema do transporte do oxigénio; o pulmão resolve o problema de extrair oxigénio do ar; em cada nível, das membranas à mente, a selecção natural darwiniana.

A frase acima é também válida para a mente humana. A mente é o trabalho do cérebro e o cérebro evoluiu por selecção natural. O cérebro é uma colecção de dispositivos para resolver problemas, formados através da selecção natural para promover a sobrevivência dos genes que dirigem essas adaptações.

Apolo

Pode-se comparar o cérebro humano a uma nave Apolo, uma colecção de dispositivos que resolvem uma torrente de problemas, sem que os astronautas tomem consciência da maioria deles.

Vocês estão sentados aí, eu apareço na vossa retina de pernas para o ar e em duas dimensões. Pensem nas adaptações que transformam isso numa imagem tridimensional. Vocês olham para a minha cara, para os meus olhos e têm mecanismos sociocognitivos muito complexos, e alguns deles, como eu vou mostrar, contribuem para a crença religiosa.

Outro ponto fundamental é este: somos, sabemo-lo agora, símios erguidos e não anjos caídos.

Desenvolvemo-nos em África. Deixem de lado todas as diferenças étnicas, religiosas e raciais. Debaixo das nossas peles, somos todos africanos. Todos e cada um dos seis mil milhões de pessoas deste planeta, somos filhos e filhas de um pequeno bando de caçadores-recolectores surgido em África há cerca de 70 mil anos e que conquistou o mundo. Somos o último hominídeo sobrevivente.

Hominídeos Comparação Lobos frontais

[mostra o slide da genealogia dos hominídeos] Talvez não saibam, esta é a vossa história familiar. Cá em baixo, os ancestrais comuns, com os cimpanzés e bonobos, e está é a linha dos hominídeos. Australopitecos, Lucy, Antropopitecos, e cá estamos nós, o nosso genus homo. Homo Habilis, Homo Erectus, Homo Heidelbergensis, Homo Neenderthalis, e agora nós, o último hominídeo vivo.

[novo slide com três crâneos] Istó é Lucy (Australopitecus), o Homo Erectus, de há dois milhões de anos, e nós. Notem em particular a área dos lobos frontais. [novo slide, com dois crâneos] Isto mostra em mais pormenor. Na esquerda temos o Homo Erectus, na direita o Homo Sapiens. Notem, em particular, o alargamento da área dos lobos frontais. Num período evolucionário muito curto, desenvolvemos estes lobos frontais. Porquê?

Lembrem-se: há um milhão e meio de anos o Homo Erectus deixou a África, sem linguagem. Foi para a Indonésia, para o Cáucaso, em certo sentido, conquistou metade do mundo. Conquistou o meio físico, há um milhão de anos. O que faltava? Qual era a parte desafiadora e complexa que governou a nossa evolução?

Bem, a mais complexa e desafiadora parte do ambiente era, provavelmente, a relação de uns com os outros..

[slide com ambiente de escritório, cada pessoa tentando espreitar o parceiro]

Esta é a fonte da nossa actividade social cognitiva complexa.

Porque é isto importante? Porque as ideias religiosas, as crenças religiosas, resultam do uso extraordinário de cognições comuns, adaptações normais e banais.

Cognições sociais, detecção de agentes hiperactiva e raciocínio cauteloso.

As ideias religiosas, as crenças religiosas são um subproduto de mecanismos cognitivos criados para outros fins.

O que é um subproduto? Bem, eu noto que alguns dos aqui presentes tomam notas. Ler e escrever é um subproduto cultural. Não temos módulos de leitura e escrita no nosso cérebro.

Trata-se de um subproduto da habilidade psicomotora fina, da visão, da linguagem.

A música é um subproduto da linguagem. Vogais e consoantes ritmadas, usualmente com o ritmo de um coração a bater.

E isto é a essência do que são as religiões. São o subproduto de mecanismos quotidianos que chegam como artefactos de habilidade para mundos sociais imaginados.

Sempre, sempre, qualquer ideia religiosa é um conceito humano com ligeiras alterações.

Bom, quantos de vocês aqui gostam de refeições Big Mac [põe logo o braço no ar, aparece imagem do Big Mac].

Vá lá, eu sou um psiquiatra, podem contar-me! [risos]

É informação confidencial, é protegida pelo Juramento de Hipócrates, podem contar-me! Vá lá!

É claro! E quantos de vocês têm desejos de brócolos? Como podem ver, há variações na espécie, mas são muito poucos.

Big Mac

A razão para isto, é que se compreenderem a psicologia da refeição Big Mac, compreendem a psicologia da religião. [risos]

A sério! Deixem-me mostrar-lhes:

Desenvolvemos adaptações, apetite para coisas cruciais e raras.

Eram adaptações cruciais no nosso passado. Então o mundo moderno cria uma nova forma que provém dessas adaptações mas captura-as com estímulos acima do normal.

Em vez de fruta madura, Coca Cola. Carne de caça magra não, mas sim um hamburger gordo. Batatas fritas salgadas, encharcadas em molho de carne.

Cria estes estímulos acima do normal, mas baseados em adaptações antigas.

Vou agora levá-los a uma pequena visita guiada a estes mecanismos cognitivos.

O primeiro é a cognição desligada. Isto é um palavrão caro para dizer que podemos separar a nossa cognição no tempo. Desde que temos estado a falar, garanto que todos nesta sala, sem deixar de escutar-me atentamente, pensaram em conversas que tiveram com alguém no passado, ou pensaram em conversas que terão mais tarde, ainda hoje.

Ao mesmo tempo que eu estou a falar, cada um de vocês pode imaginar, e conduzir dentro da sua cabeça, uma conversa com o Presidente Obama.

Como podem ver, é extraordinário. E é crucial, para a memória, para o planeamento. É uma das essências da nossa humanidade.

Permite-nos estas interacções complexas com outros invisíveis, interacções sociais complexas com outros invisíveis.

Estamos apenas a um pequeno passo de comunicar com um antepassado falecido.

Não sei como é convosco, mas estou a chegar a uma idade em que muitos dos que me são queridos já faleceram e dou por mim, volta e meia, a falar com eles.

Só mais um passo e estamos a comunicar com um deus ou deuses.

Detecção de agentes hiperactiva.

Todos nós tomam uma sombra por um ladrão.

Nunca tomamos um ladrão por uma sombra.

Temos estes mecanismos hiperactivos de detecção de agentes. Se ouvíssemos um estrondo agora todos ficaríamos alarmados e assumiríamos que não era um acidente e que o estrondo se devia a um agente, e provavelmente a um agente humano.

Então, vocês podem razoavelmente perguntar: como pode a cognição desligada (interagir com outros), como pode a detecção de agentes hiperactiva, como é que isso leva ao sobrenatural, a figuras sobrenaturais, a ladrões sobrenaturais?

Como é que passamos ao nível seguinte, do humano ao sobrenatural? [mostra slide]

Círculos e quadrado

Isto. As vossas mentes preenchem os espaços em branco. Não há linhas naquela foto, mas as vossas mentes preenchem o quadrado branco. Chamamos a isso o raciocínio intuitivo, que sublinha a essência das ideias religiosas, que são mundos minimamente contra-intuitivos (MCIs).

O que é isto?

Mundos minimamente contra-intuitivos:

Deixem-me ilustrar esta ideia. Se eu lhes disser que aquela árvore grande em frente do Centro de Conferências vai preencher os vossos impressos dos impostos, lavar a vossa roupa, seu lá, reprogamar o vosso computador, vocês não vão simplesmente acreditar em mim.

Mas se eu disser que aquela árvore, numa noite de lua cheia, ouvirá os vossos desejos e irá realizá-los, podem ser vulneráveis a acreditar nisso. Não esta audiência, mas outras [risos].

Podem ser vulneráveis porque á só uma ligeira deformação, mas tudo o que sabem sobre árvores está intuitivamente lá. E vocês preenchem os espaços em branco.

Agora, pensem no deus judeo-cristão. Está em toda a parte. Isto é uma ligeira deformação da física, mas ele continua a ser "um indivíduo". E vocês preenchem os espaços em branco, não há nenhuma violação das suposições humanas básicas: é um tipo, consegue compreender o meu inglês do sul dos EUA, estão a ver, preenchemos todas as suposições humanas.

Protótipos supernaturais:

  • Física contra-intuitiva
  • Biologia contra-intuitiva
  • Psicologia contra-intuitiva
Envolvem sempre a atribuição de estados mentais

E todas as ideias religiosas preenchem estes protótipos:

Têm uma propriedade física contra-intuitiva. Por exemplo, deus está em toda a parte.

Pode ser um aspecto biológico contra-intuitivo, o parto de uma virgem, mas Maria é, sob os outros aspectos, apenas uma rapariga...

Psicologia contra-intuitiva: por exemplo, Deus sabe o que eu estou a pensar, mas se ele sabe o que eu estou a pensar, porque é que tenho que rezar-lhe, porque é que tenho que falar com ele? Porque todas as suposições básicas sobre as qualidades humanas se mantém intactas, é por isso que acreditamos nessas ideias, por isso começamos a aceitá-las e pernanecem nas nossas cabeças.

Há sempre a atribuição de estados mentais, estados mentais humanos.

Lembrem-se de qualquer ideia religiosa. Voltem aos tempos da escola, pensem em qualquer sistema religioso que conheçam e ele cabe neste modelo.

Vemos isto mais claramente, vemos estas vulnerabilidades nas crianças. Somos todos crianças que cresceram.

Desde a mais tenra idade, as crianças são dualistas do senso comum. Que quer isto dizer?

Quer dider que uma criança de cinco meses, ao ver uma caixa que saltite e se mexa como uma pessoa, ficará espantada. Um bebé de cinco meses não se espanta quando uma pessoa se mexe exactamente da mesma maneira.

Portanto vemos que muito cedo temos sistemas que tratam com agentes, que têm intenções e objectivos, por um lado, e com objectos físicos, por outro.

As crianças sabem mais do que aprendem. Elas vêm ao mundo com estes sistemas já a trabalhar.

É natural, desde muito cedo, pensar em mentes sem corpo. Virem isto do avesso e vejam como isto é decisivo. Se eu preciso de um corpo para pensar na mente dessa pessoa, isso é uma desvantagem real. É uma maçada. Eu preciso de poder pensar em alguém, pensar no que se passa com esse alguém, considerar quais serão as suas intenções e os seus objectivos, sem essa pessoa estar presente.

Jesse Bering na Irlanda (Queen's University, Belfast) fez esta experiência fascinante, um espectáculo de fantoches em que um jacaré come um rato. Perguntou às crianças: o rato continua a precisar de comer e beber? Elas responderam que não. Será que o rato ainda se mexe? Não! Será que o rato pensa certas coisas, será que o rato quer certas coisas? Elas responderam que sim. Começamos a ver a tal divisão.

A crença numa qualquer forma de vida separada da que experimentamos no corpo é a configuração base do cérebro humano.
(Bering, 2004)

Metade das crianças de quatro anos, se as entrevistarmos, têm amigos imaginários.

Vemos então que a crença numa qualquer forma de vida separada da que experimentamos no corpo é a configuração base do cérebro humano (Bering, 2004).

Outra coisa sobre as crianças é que são deterministas causais. Que quer isto dizer?

Significa que toda a mente orientada para apreciar intenções e desejos e objectivos vai exagerar na leitura de intenções. Se perguntarmos a uma criança para que serve um pássaro, ela terá tendência a dizer: Para cantar.

Para que serve um rio? Para os barcos flutuarem nele. Para que serve uma rocha? Para os animais se coçarem. E por aí fora.

Temos uma leitura exagerada da causalidade. Exageramos imenso a leitura da causalidade e da intencionalidade.

Se formos ao site de Dawkins (www.richarddawkins.net), há uma conversa fascinante entre Richard Dawlins e Randy Nesse em que, no início, ambos dão por si a falar da selecção natural como se fosse um agente intencional. Então reparam que estão a usar linguagem intencional e páram. É muito fácil para nós imaginar agentes intencionais separados de nós próprios.

As crianças inventam espontaneamente o conceito de deus sem a intervenção de adultos.

AS CRIANÇAS

  • Inventam espontaneamente o conceito de deus sem a intervenção de adultos.
  • A religião é o caminho mais fácil
  • A descrença é que exige esforço

(Petrovich, 2009, Boyer, 2009)

Começamos a ver que estes mecanismos com os quais nascemos nos tornam vulneráveis às ideias religiosas. As ideias religiosas são muito mais fáceis. Mais difícil é a descrença. Compreender verdadeiramente uma coisa como a selecção natural é cognitivamente um pouco mais difícil.

Cognição desligada, detecção de agentes hiperactiva, mundos minimamente contra-intuitivos, teleologia promíscua, começámos a contruir a lista destes mecanismos cognitivos. Agora voltamo-nos para o mecanismo da ligação afectiva.

O mecanismo da ligação afectiva (attachment) nos humanos foi descrito pelo psiquiatra John Bowlby na Inglaterra, e pela psicóloga Mary Ainsworth nos EUA. A ligação afectiva é o principal mecanismo dos cuidados nos mamíferos. [sucessão de slides de adultos e crias: girafas, símios e humanos]

Pensem nas religiões. Estamos em aflição, para quem nos viramos? Para alguém que cuide de nós, viramo-nos para uma figura com ligação afectiva. [slide com crâneo do Homo Erectus]

Alan Walker, o grande paleo-antropólogo, tem esta história espantosa, sobre o rapaz de Turkana. Encontraram um fóssil de 1,7 milhões de anos, de uma mulher adulta, de uma mulher Homo Erectus e ela tinha morrido de envenenamento severo com vitamina A. Isso significa que ela tinha hemorragias nas articulaçães, dores, não podia mexer-se. É uma meneira terrível de morrer. Após uma inspecção mais cuidadosa, notaram que havia novo crescimento ósseo e isso chamou-lhes a atenção. Isso queria dizer que esta mulher de há 1,7 milhões de anos sobreviveu durante meses. Quer dizer que cuidaram dela. Deram-lhe comida e água. Protegeram-na de predadores. Ficaram junto a ela nas noites escuras, longas e perigosas da savana.

Portanto vemos este sistema de ligação afectiva na nossa espécie e nos nossos antepassados de há 1,7 milhões de anos.

[slide de Charles Darwin] O sistema da ligação afectiva é crucial para a crença, mas o que quero mostrar é que esse mesmo sistema é que torna muito difícil abandonar a crença religiosa — e vemos isso ilustrado na vida de Charles Darwin. Lembram-se que Darwin embarcou no Beagle entre 1831 e 1836, voltou para casa e as suas ideias começam a assentar. John Gould conta-lhe que os seus tentilhões são espécies que nunca tinham sido vistas, dá-se conta que as espécies não são imutáveis e começa a pensar na evolução.

O Homem, na sua arrogância, considera-se uma grande obra, digna do trabalho de uma grande deidade. Mais humildemente, na verdade eu considero-o criado a partir de animais.

Charles Darwin, Apontamentos

"A razão diz-me que dúvidas honestas e conscienciosas não podem ser um pecado, mas sinto que seria um vazio penoso entre nós"

(Emma a Charles, Novembro de 1838).

"Não vá o hábito, nas tuas pesquisas científicas, de nada acreditar sem que esteja provado, influenciar demasiado a tua mente sobre outras coisas que não podem ser provadas"

Emma a Charles, Fevereiro de 1839

"Quando eu morrer, quero que saibas que muitas vezes te beijei e chorei a pensar nisto" (C.D.)

[slide dos apontamentos de Charles Darwin] Abre os seus apontamentos, este é o original da árvore da vida, vê que o homem pode provir de animais e não vê qualquer necessidade de uma deidade. Lembrem-se que ele começou a viagem do Beagle como criacionista. Isto é o que ele escreve nas suas notas, em 1837 (caixa). Estava noivo de Emma Wedgewood [slide de Emma Wedgewood], sua prima direita.

Compreende que as espécies mudam. Evoluem. Mas não tem um mecanismo. Em Setembro de 1838 lê o ensaio de Malthus e tem a sua ideia. Vê o mecanismo. A luta pela existência.

Setembro de 1838. Nalgum dia desse Outono conta à sua noiva. Em Novembro recebe a primeira carta deste tipo (Caixa).

Ela estava aflita e diz-lhe que este tipo de pensamento pode "criar um vazio entre nós".

Casam em Janeiro de 1839 e em Fevereiro de 1839 ela escreve-lhe outra carta (ver caixa). Depois da sua morte esta carta foi descoberta e, escrita pela mão de Charles Darwin, uma nota: "Não sabes quantas vezes chorei a pensar nisto". Por volta de 1840, Charles Darwin acompanha a mulher e os filhos à igreja no domingo, pára à entrada, eles entram e então ele vai dar um passeio. [slide de Charles e Emma na meia idade]

É razoável pensar que a preocupação com a reacção de sua esposa, com a ruptura desse laço, tenha sido uma das razões que terão levado Darwin a ficar com a sua ideia para si durante cerca de vinte anos.

E encontramos este medo de quebrar a ligação afectiva mesmo num dos modernos apologistas, Karl Giberson, do Nazarene College of Physics, que está sempre a falar da necessidade de reconciliar a evolução e a religião. E exprime-o de maneira bem clara. Se fosse a deixar a sua fé, perderia os seus pais, a sua mulher, os seus filhos. Medo da perda da ligação afectiva, da ruptura desse laço.

[Slide: "Tenho uma razão de força para crer em Deus. Os meus pais são cristãos fervorosos e seria uma tragédia para eles se eu rejeitasse a minha fé. A minha esposa e os meus filhos crêem em Deus... Abandonar a crença em Deus seria um desastre e faria a minha vida descarrilar completamente." (Karl Gilberson, Saving Darwin, How to Be a Christian and Believe in Evolution, 2008)]

Portanto vemos que o sistema da ligação afectiva é ao mesmo tempo crucial para a religião e uma das barreiras contra o seu abandono.

TEORIA DA MENTE

  • Compreender o que o outro está a pensar
  • Atribui crenças, desejos, intenções...
  • O outro experimenta estados mentais.
Humprey Bogart

 

Olhos 1

 

Olhos 2

Agora vou virar-me para a Teoria da Mente.

Todos aqui sabem que eu tenho uma mente como as vossas mentes, com intenções, desejos e anseios, mas com intenções, desejos e anseios que podem ser diferentes dos vossos, e que vocês têm de ler. Estas capacidades aparecem, creio, por volta dos três ou quatro anos de idade.

[slide de Humprey Bogart] Quero que olhem para a foto de Bogart da esquerda e rapidamente para a da direita. Se fizerem isso, verão na foto da esquerda os olhos de Bogart a olhar para a direita; na outra figura os olhos de Bogart olham para a esquerda. Mas como pode ser isso, se é a mesmíssima fotografia, somente virada a negativo? Porque mudam os olhos de Bogart?

Estou a tentar chamar a vossa atenção para a ideia que temos sistemas separados para, ao olhar para caras, tomar conta dos olhos.

[slide de olhos] Olhem para isto, usem a vossa intuição e adivinhem qual é a emoção que este indivíduo sente. [a assistência pronuncia-se]

Pouco à vontade. Correcto. [novo slide de olhos]

[a assistência pronuncia-se] Brincalhona. É brincalhona. Agora pensem nisto por um momento. Estão a olhar para fotos granulosas e a preto e branco de olhos e estão a fazer discriminações sofisticadas sobre estados emocionais complexos.

As mulheres são um pouco melhores nisto que os homens, mas podemos discernir cerca 212 estados emocionais complexos só por olhar para os olhos. Se estiverem interessados nisto, é do irmão mais esperto de Sasha Baron-Cohen [risos] Simon Baron-Cohen, de Cambridge. Isto é muito melhor que o Borat [risos], é muito interessante e faz parte da Teoria da Mente.

INTENSIONALIDADE

>1.ª ordem  >Eu penso
>2.ª ordem  >Eu penso que tu pensas
>3.ª ordem  >Eu penso que tu pensas que eu penso
>4.ª ordem  >Eu penso que tu pensas que eu penso que tu pensas

[novo slide com cartoon, consultório de psiquiatra, paciente na marquesa] Talvez não consigam ler a legenda. Diz: "Que é que você pensa que eu penso sobre o que você pensa que eu penso sobre o que você pensa?" [risos]

Isto é outra parte da Teoria da Mente, chamada Intensionalidade (com um S). A primeira ordem é "eu penso", a segunda ordem é "eu penso que tu pensas", a terceira "eu penso que tu pensas que eu penso", e por aí fora, podendo ir até à quinta ou sexta ordem, e pára aí.

E podemos ver que isto é absolutamente crucial para a interacção social. Crucial. E um pedaço extraordinário de software cognitivo.

Trio

INTENSIONALIDADE

1.ª ordem >Eu acredito
>2.ª ordem >Eu acredito que Deus quer
>3.ª ordem >Eu acredito que que Deus quer que as nossas acções sejam justas
>4.ª ordem >Eu quero que acredites que Deus quer que as nossas acções sejam justas (religião social)
5.ª ordem Eu quero que saibas que ambos acreditamos que Deus quer que as nossas acções sejam justas (religião comunitária)

Dunbar New Scientist, 2006 

[novo slide, triângulo esposa, estranho, marido] Ela pensa que o estranho é um chato, o estranho pensa "eu creio que ela pensa que eu sou muito atraente", o marido pensa: "Suspeito que ele pensa que ela quer andar com ele".

Agora vejam o que fazem as religiões. As religiões também usam isto.

Primeira ordem, eu creio, segunda ordem eu acredito que Deus quer, terceira ordem eu acredito que Deus quer que as nossas acções sejam justas.

A quarta ordem é religião social: Eu quero que acredites que Deus quer que as nossas acções sejam justas.

A quinta ordem, religião comunitária: Eu quero que saibas que ambos acreditamos que Deus quer que as nossas acções sejam justas.

Vejam como as religiões usam esta adaptação cognitiva ordinária... não tão ordinária assim, mas esta adaptação cognitiva que é crucial para a nossa interacção social.

Agora vou virar-me para uma das coisas mais excitantes que apareceram nos últimos tempos. Apareceu em Março passado, um papel de um grupo de pessoas liderado por Dimitrios Kapogianis. Esta pesquisa vem do Instituto Nacional de Saúde, Instituto Nacional do Acidente Vascular Cerebral e da Esclerose Cerebral [Evidência de imagens neurais, "Cognitive and neural foundations of religious belief" (Fundações cognitivas e neurais da crença religiosa), Dimitrios Kapogiannis, et al, PNAS, 2009], o que eu adoro!

Este estudo único no género pegou en 20 homens e 20 mulheres, de várias religiões, pô-los em máquinas de imagem de ressonância magnética a funcionar, e leram-lhes cerca de 100 pares de afirmações, sobre experiência religiosa, conhecimento, várias coisas. "Deus controla o mundo, Deus está ausente do mundo", "Deus tem opinião sobre o casamento", "Deus desaprova a homosexualidade"...

Ressonância magnética 1 Ressonância magnética 2 Ressonância magnética 3 Ressonância magnética 4

Havia uma lista longa. Puseram estes indivíduos em máquinas de ressonância magnética, perguntaram-lhes se concordavam ou discordavam com cada afirmação e mediram a resposta.

Se não estão habituados a ver imagens de ressonância magnética, olhem para a imagem da esquerda, é como se o meu hemisfério direito tivesse sido removido, estão a olhar para uma espécie de cérebro cortado, o meu cérebro mesmo na linha central, e a seguir, para a direita, aparecem fatias do meu hemisfério direito, sendo a da direita do córtex exterior. Os padrões que apareceram são uniformes.

O amor de deus, a ira de deus, conhecimento religioso doutrinal, conhecimento religioso experiencial.

Em todos estes indivíduos religiosos, os padrões revelaram-se os mesmos. Porquê?

Há três dimensões da crença religiosa.

Tudo isto aparece localizado em redes que processam a Teoria da Mente, intenção e emoção, e semântica e imagens abstractas.

Porque é que isto é importante e único?

Já se fizeram ressonância magnéticas de monges budistas e de outra gente, mas estas são pessoas comuns de várias convicções religiosas. O que este estudo nos mostra é que os componentes das crenças religiosas são servidos por circuitos neurais bem conhecidos que intervêm nas funções cognitivas que são adaptações evolucionárias. Que a religiosidade usa circuitos cerebrais usados para as funções cognitivas sociais, em vez de usar zonas próprias. Não há redes específicas para religiosidade no cérebro. Nem há redes religiosas específicas em indivíduos diferentes, usam todos os mesmos circuitos comuns às funções cognitivas sociais.

Isto, creio eu, é poderoso.

Evidência poderosa que suporta a ideia que as religiões evoluem a partir destes mecanismos cognitivos usados na interacção social.

E têm que adorar que isto venha do Intituto Nacional de Saúde (dos EUA).

Talibã

Agora, o problema dos cadáveres.

Que fazemos com os cadáveres?

Estão mortos ou a dormir?

O que acontece quando somos confrontados com um cadáver (em particular quando se trata de alguém que amamos), temos um problema, porque há um conflito. Conflito entre as capacidades da Teoria da Mente que temos, porque estas capacidades mantêm-se, mas os módulos de análise de categorias naturais dizem-nos que este corpo está bem morto. Portanto a mente está viva, o corpo está morto, há um conflito.

É por isso que quando perdemos alguém que amamos continuamos a falar com ele. É também por isso, por causa desses módulos de Teoria da Mente que temos, que somos praticamente incapazes de conceber a nossa própria morte. Planeamos os nossos funerais como se fôssemos estar lá.

Tenho um paciente a quem tinha um amigo que se suicidou e que, semanas após o óbito, continuava a mandar mensagens de texto para o amigo.

E podemos ver que este conflito entre os modulos de Teoria da Mente e os módulos de categorias naturais e o problema dos cadáveres vai-se ligar à cognição desligada e aos outros factores de que vos falei e vai criar a ideia de almas e a vida que continua depois da morte.

Dalai Lama

Penso que mostrei que isso não é um salto assim tão grande, baseado na nossa arquitectura cognitiva evolutiva.

Vamos a um teste instintivo. O que sentem quando olham para este homem? Eu sinto um irmão mais velho e amável.

Isto é um conceito descoberto por Freud. O conceito de transferência, de que baseamos relações actuais em relações passadas. Estabelecemos uma gramática das relações muito cedo nas nossas vidas.

Já viram o filme Memento? Mostra o que acontece quando se perde essa capacidade. Temos que aprender sobre as relações sociais de novo de cada vez.

Vemos como as religiões se apoderam destas capacidades de transferência, em particular as transferências parentais. O que se liga também com o problema da ligação afectiva.

Alguns outros mecanismos cognitivos:

Credulidade infantil

Como Richard (Dawkins) disse, a evolução "desenhou" os cérebros infantis de forma a que absorvessem a cultura à sua volta. E uma criança não pode diferenciar entre um bom conselho (Não vás nadar no rio com crocodilos) e um mau conselho (Sacrifica um porco nas colheitas).

Obediência à autoridade

Todos nós somos muito mais obedientes à autoridade do que estamos dispostos a admitir. A famosa experiência de Stanley Millgram mostra que podemos fazer coisas, guiados pela autoridade, que num outro nível sabemos que não devíamos fazer.

Altruísmo recíproco

Guardamos nas nossas cabeças a quem devemos e o que devemos, e também quem nos deve. As religiões usam isto: se fizeres um sacrifício, receberás algo em troca. Reciprocidade.

Amor romântico [slide de casal sorridente]

Temos circuitos no nosso cérebro "desenhados" para o amor romântico. Um foco intenso, amor e compromisso para com um indivíduo. E este mecanismo cognitivo é também usado pela religião. [slide da Madre Teresa de Calcutá] Pensem na Madre Teresa e nas suas recentes cartas em que ela falava de "casar com Cristo". Se viram o filme "The Painted Veil" ("O Véu Pintado" em Portugal), Diana Rigg, que faz o papel da freira, tem uma poderosa cena em que fala de como em jovem se apaixonou por Jesus.

Sistemas de sentimentos morais

Todos nós temos poderosos sistemas de inferência moral que estão activos já com um ano de idade! Mas é muito difícil pare nós ter consciência da origem disto. São coisas que sentimos a um nível visceral. É disto que as igrejas se apoderam, quando garantem que não teríamos moralidade se não fossem elas. Então estes sistemas morais são recrutados para dar plausibilidade aos deuses, para ligar a mecanismos de compromisso, cometimento ou voto, e ainda para arranjar testemunhas moralmente competentes para as nossas acções. Ajuda-nos a sermos conscientes dos nossos sistemas morais que são, basicamente, instintivos.

MORALIDADE E RELIGIÃO

  • Moralidade é fazer o que está certo, sem ligar ao que nos dizem.
  • O dogma religioso é fazer o que nos dizem, independentemente do que está certo.

Penso que esta é uma maneira útil de distinguir entre moralidade e moralidade religiosa: Moralidade é fazer o que está certo, independentemente do que nos dizem. O dogma religioso é fazer o que nos dizem, independentemente do que está certo.

Uma coisa relacionada com isto é a

Punição Altruísta

É um mecanismo cognitivo que todos temos. O desejo de punir delitos sociais mesmo que isso nos custe. Todos nós o fazemos, todos o fizemos. É crucial para a vida social. O terrorismo suicida é apenas um passo mais.

Empatia

Se eu levantar a minha mão direita [faz isso mesmo] há neurónios na minha faixa motora esquerda que se acendem. Vocês, aí sentados a ver-me levantar a minha mão direita, os mesmos neurónios nas vossas faixas motoras esquerdas acendem-se também. Os mesmíssimos. Mas vocês inibem a resposta.

Se eu estender a minha mão e com esta faca [usa o canivete suíço] começar a espetar na palma da mão, sinto alguma dor. Alguns neurónios acendem-se na minha faixa sensora-motora esquerda, no meu tálamo. Estou a começar a sentir dor. Ao verem-me fazer isto, os mesmos neurónios na vossa faixa sensora-motora acendem-se. Só têm que ver-me fazer isso, e talvez um esgar na minha cara, e sentem a mesma coisa. Literalmente, vocês sentem a minha dor.

Cruxicações

 

Cerimónias religiosas

Esta capacidade de empatia é crucial para as relações sociais. Como é que as religiões se apoderam disto? Este (imagem da esquerda) é um devoto filipino que se fez pregar numa cruz no ano passado. Não sei de vocês, mas enquanto criança vi muito disto (imagem da direita). Isso fazia-me sentir realmente mal. Pensei que havia algo de errado comigo, mas consigo lembrar-me de me sentir mal com isto.

Sempre que uma coisa destas é mostrada, por muito endurecidos que estejamos, num nível qualquer, aquelas partes de nós que sentem a dor que seria induzida por esta tortura acendem-se e as religiões apoderam-se disto, desta capacidade de sentir a dor dos outros para induzir nos fiéis culpa e obrigação.

Outra coisa que usam são sinais de compromisso honestos, custosos e difíceis de fingir.

Como sabem vocês que o meu compromisso é sério? Porque haviam de acreditar no que digo? Tenho que dar-vos um sinal honesto e difícil de fingir. Isto é crucial para as relações sociais e podemos ver como as religiões usam isto.

Todas as religiões. O terrorismo suicida é apenas um outro sinal de compromisso difícil de fingir.

Isto está ligado aos rituais religiosos, que se nutrem de um outro mecanismo: os sistemas de resposta a ameaças, são arrebatadores e com um guião rígido e ligados aos rituais de purificação e ordem.

E permitem... Começam a ver como todos estes mecanismos cognitivos convergem. Nós sentimo-los como a consciência, como um processo indivisível, mas são na verdade partes muito específicas.

OS RITUAIS RELIGIOSOS

Esta lei do todo significa que quando vemos uma formação em V de aves [slide de formação de aves] não vemos os indivíduos, vemos o "V".

As religiões exploram isso com estas cerimónias chamativas e memoráveis, muitas vezes intimidadoras, desenhadas para nos impressionar e intimidar.

Outros mecanismos envolvidos:

Raciocínio motivado

Duvidamos daquilo que não gostamos.

Tendência para a confirmação

Temos tendência a reparar em dados que servem as nossas convicções.

Psicologia familiar

Isto é enorme na religião. Todos nós temos mecanismos para identificar e favorecer os familiares e as religiões apoderam-se disto. Basta ver a religião católica: os padres são pais, as freiras são irmãs, o papa é o santo pai.

Espero ter mostrado — e isto é apenas uma curta lista, não a lista completa dos mecanismos cognitivos "desenhados" para outros fins e que convergem para criar crenças religiosas, ideias religiosas e que nos tornam vulneráveis a acreditar nelas e a transmiti-las.

Gostava de fechar agora com uma pequena nota histórica que, penso eu, é interessante e ilumina o futuro.

Julgamento de Skopes
  • Epperson v. Arkansas, 1968;
  • Wright v. Distrito Escolar Independente de Houston, 1972;
  • Willoughby v. Stever, 1973;
  • Daniel v. Waters, 1975;
  • Hendren v. Campbell, 1977;
  • Segraves v.Califórnia, 1981;
  • McLean v. Arkansas, 1982;
  • Edwards v. Aquillard, 1998;
  • Webster v. Distrito Escolar de New Lennox, 1994;
  • Bishop v. Aronov, 1991;
  • Peloza v. Distrito Escolar de Capristano, 1994;
  • Hellend v. Community School Corp., 1996;
  • Freiler v. Comissão de Educação da Paróquia de Tangipahoa, 1997;
  • Edwards v. Universidade Califórnia da Pensilvânia, 1998;
  • LeVake v. Distrito Escolar Independente 656, 2000;
  • Selman v.Distrito Escolar do Condado de Cobb, 2005;
  • Kitzmiller v. Distrito Escolar da Área de Dover, 2005:
Ciência e religião

"A Psicologia deve ser baseada numa nova fundação..."

Charles Darwin

"Da origem das espécies
baseada na selecção natural", 1859

Em 1918, 80 anos depois de Darwin ter resolvido a sua ideia de selecção natural, William Jennings Bryan começou o que Dudley Malone mais tarde chamou o seu duelo mortal com a evolução, que culminou no julgamento de Skopes, em Dayton, no Tennessee, no Verão de 1925. Só que a evolução sobreviveu e Bryan não. Clarence Darrow montou um dos melhores interrogatórios de uma testemunha hostil de sempre e deu completamente cabo de Bryan. Fê-lo em pedaços no banco das testemunhas. William Jennings Bryan morreu cinco dias depois do julgamento.

As coisas mantiveram-se calmas por uns 40 anos e então, nos anos 60, começou uma série de julgamentos (os que estão a amarelo são do Supremo).

Começa com o caso Epperson, que baniu qualquer banimento da evolução. Houve então a reacção da religião com tentativas de fazer ensinar a criação, "ciência da criação". Houve 17 casos maiores, sendo o mais recente o caso Dover.

Em cada um destes casos, a ciência e a evolução venceram.

No julgamento Skopes, Dudley Malone, que era um advogado de divórcios católico irlandês e coadjuvava Clarence Darrow, fez o que se considerou o melhor discurso do julgamento: o discurso da Liberdade Académica, no qual disse: "Ensinem ciência, ensinem a evolução!"

Mas ele disse que não havia conflito entre a religião e a ciência.

Se se lembram do caso Dover, Kenneth Miller, o biólogo da Universidade de Brown, que era um dos principais peritos dos queixosos, afirmou que o "design inteligente" não era ciência. Mas que não havia conflito entre a religião e a ciência. E isso acabou por ir parar à sentença do juíz Jones.

Eu penso que esta audiência sabe que há na verdade um conflito entre ciência e religião. [aplausos]

Se fiz bem o meu trabalho esta manhã, espero ter-lhes mostrado que estamos no limiar de uma neurologia geral da religião. Isso aprofunda o conflito entre ciência e religião.

Não só a ciência da Biologia Evolutiva, que Darwin começou, mas a ciência da mente, a neurociência evolucionária cognitiva, que Darwin também começou.

Isto aprofunda o conflito.

Não tarda muito que qualquer manual de Psicologia... para que um manual de Psicologia esteja actualizado, terá de incluir esta neurologia cognitiva da religião.

Não tardará muito também que um John Skopes ou uma Jean Skopes se ponha a ensinar neurologia cognitiva da religião, numa aula do secundário, numa escola pública.

Vocês e eu sabemos que vai haver litígios, postos pela direita religiosa. Eu penso, e espero, dado o que lhes mostrei hoje, que o vosse sentimento sobre esses litígios será o mesmo que o meu:

– Venham eles!

 

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