Plan of Attack

Bob Woodward

A Administração Bush II prepara a guerra contra o Iraque

No seu estilo habitual, factual e circunspecto, Bob Woodward consegue contar uma história seca e linear mas recheada, página a página, de pormenores surpreendentes, transcrições de planos ultra−secretos, minutas de reuniões privadas, detalhes de conversações diplomáticas ao mais alto nível com governos estrangeiros, num período de 16 meses, entre Novembro de 2001 e Março de 2003. Nem a superdiscreta NSA escapa a ver algumas das suas actividades escarrapachadas no livro.

Os personagens principais são George W. Bush (claro), os neoconservadores Dick Chenney (vice−presidente), Donald Rumsfeld (secretário da Defesa), Paul Wolfowitz (secretário da Defesa adjunto), Condolezza Rice (conselheira de Segurança Nacional), de um lado; do outro Colin Powell (secretário de Estado) e Richard Armitage (secretário de Estado adjunto). Do lado militar, o general Tommy Franks, chefe do COMCON (comando operacional encarregado da zona do Golfo Pérsico, entre outras).

Da leitura do livro torna−se evidente que:

  1. George W. Bush iniciou o planeamento da guerra contra o Iraque cerca de dois meses e meio depois do 11 de Setembro.
  2. Toda a actividade da Administração Bush II na ONU, no sentido da implementação das inspecções foi uma cortina de fumo. O objectivo foi sempre a invasão do Iraque.
  3. Mesmo antes do 11 de Setembro, vários membros da Administração já pressionavam para uma acção militar que depusesse Saddam Hussein.
  4. Os neoconservadores sempre se opuseram à acção da ONU e temiam qualquer êxito diplomático ou solução política que inviabilizasse a ocupação militar.
George W. Bush, o presidente Dick Cheney, o vice Donal Rumsfeld, o organizador Tommy Franks, o comandante Paul Wolfowitz, o ideólogo Condoleeza Rice, o fiel da balança Colin Powell, a oposição leal Richard Armitage, o amigo de Powell
  1. Os mentores principais desta política foram Dick Chenney e Paul Wolfowitz. A luta contra a Al Qaeda, passou para segundo plano e tornou−se meramente num chavão para impulsionar o cavalo de batalha iraquiano.
  2. O principal executor foi Donald Rumsfeld, usando o gen. Franks como sua montada (e com a rédea muito curta) o tempo todo.
  3. Visto que a justificação para a invasão do Iraque era que Saddam possuía armas de destruição massiva, estava ligado à Al Qaeda e iria fornecer−lhes essas armas para usar contra os EUA e nada na informação secreta existente justificava qualquer destes pontos, a direcção da CIA foi forçada a massajar a mensagem para criar uma ameaça que servisse de justificação credível.
  4. Apesar disso, os resultados da actividade CIA e da NSA eram magros e tiveram que ser muito exagerados para servirem numa campanha sistemática de desinformação da opinião pública de modo a justificar o perigo Saddam.
  5. A CIA tinha inicialmente poucas fontes dentro do Iraque (4) e estas eram periféricas em relação aos círculos internos do regime, mas países árabes como o Egipto tinham boas redes e boa informação, que a CIA não se esforçou por adquirir – ou adquiriu e não usou, talvez por ser informação adversa aos objectivos políticos da Administração.
  6. Colin Powell e o Departamento de Estado nunca promoveram uma política alternativa em relação ao Iraque. Apenas pressionaram para um uso efectivo da cobertura diplomática da preparação da guerra (estavam ao corrente dos planos da guerra desde o início).
  7. A administração Bush II foi obrigada pelos estados árabes a executar iniciativas diplomáticas a favor da paz israelo−árabe, como condição da concessão dos direitos de sobrevoo e uso de bases na operação contra o Iraque, mas não se esforçou nada para obter uma paz negociada. Os magros esforços de Colin Powell foram abertamente torpedeados por vozes da Administração e pelo próprio presidente a fazer coro com Ariel Sharom contra Yasser Arafat.
  8. A preparação e execução da guerra contra o Iraque substituiu efectivamente a perseguição da Al Qaeda. Desde os primeiros dias dessa preparação não surgiu qualquer iniciativa de perseguição da organização terrorista. Como avisou Colin Powell, o projecto Iraque iria sugar todo o oxigénio dos restantes assuntos.
  9. O plano para administrar o Iraque depois da guerra não fazia parte do plano militar. Foi criado por por uma comissão ad hoc interagências no Departamento da Defesa, da qual foram excluídos muitos dos funcionários especializados do Departamento de Estado, devido a desconfiança política. Quando o plano estava a ser concebido, as fases preparatórias da invasão já estavam em execução. Além disso, o gen. Tommy Franks deu−se mal com o encarregado do plano e chamou−lhe o gajo mais estúpido que já vi.
  10. George W. Bush não surge aqui como o idiota que aparenta ser nos media, mas não é de certeza um líder histórico. É cauteloso, sorrateiro e de uma esperteza um bocado saloia, mas incapaz de grandes rasgos e com capacidades de liderança muito limitadas, mesmo perante os seus conselheiros – príncipe fraco e cortesãos buliçosos, é essa a imagem.

A instituição Bob Woodward

O nível de acesso do autor aos meandros da política da administração americana é inacreditável. Nenhuma classificação de segurança lhe resiste. Nem os segredos da CIA lhe são negados, nem os planos militares ultra−secretos Top Secret/Polo Step. As mais discretas reuniões entre os operadores políticos da administração acabam transcritas ipsis verbis ou quase.

Como no mundo da espionagem, as informações mais importantes só são obtidas mediante o uso de poderes de coacção. Desde o Watergate, Bob Woodward ganhou e tem gerido cuidadosamente esse poder. Num universo de operadores conscientes do poder dos media e ansiosos por utilizá−lo ou temerosos de ser suas vítimas, Woodward usa constantemente a informação que já tem na mão para obter mais.

É do tipo: "Tenho a informação de que o sr. disse, num pequeno−almoço com Fulano, isto..." E logo o visado, com medo de ver a sua posição exposta de forma desfavorável, responde: "Não, não, não foi nada disso que eu disse. O que eu disse foi..." Claro que o jornalista volta logo a seguir à fonte inicial e espreme−a mais um pouco. É como as técnicas de interrogatório da polícia: "Deixa−te de evasivas porque eu já sei tudo. O teu comparsa já confessou e disse que tu és o maior culpado!" Para evitar ser o maior culpado, o preso tem que confessar tudo...

Mas isto pressupõe uma relação de poder muito curiosa entre o jornalista e o poder político. Embora não tenha poder político formal absolutamente nenhum, o jornalista pode destruir cada um dos seus operadores, os quais precisam de estar bem vistos na imprensa todos os dias.

Várias vezes no livro, Bob Woodward alude às suas negociações com os operadores políticos da administração. Às vezes aceita adiar certas revelações, o que as torna menos tópicas; outras vezes aceita ocultar parte da notícia, nomeadamente por se tratar de segredos operacionais perigosos ou por porem em xeque a política americana perante outros países – mas na condição que esse silêncio seja comprado com mais informação publicável! Num caso, Richard Armitage aceita fazer uma declaração directa e citável sobre um assunto espinhoso, como única forma de proteger Powell de um artigo adverso feito à base de informação off the record mas que se supunha vir dos seus adversários políticos.

Em muitos dos casos, Bob Woodward sossega os seus interlocutores com a garantia de que as informações são para publicar em livro e não no Washington Post. Assim obtém informação confirmada que não pode usar imediatamente; mas o facto de se tratar de informação confirmada permite usá−la para obter mais informação.

Todos os operadores, é claro (a começar por G.W. Bush) estão ansiosíssimos por aparecer bem no livro de Woodward, porque aí trata−se do seu lugar na História. Para qualquer membro da administração, mas em especial para um presidente, no fim do mandato, é isso que realmente conta. Bill Clinton verá sempre o seu nome citado junto com o de Monica Levinsky, por muitas coisas interessantes que tenha feito no seu mandato. Bush pai tem dificuldade em escapar à expressão read my lips. Todos querem manter Bob Woodward feliz e a única maneira de mantê−lo feliz é dar−lhe muita informação.

Agora não podemos pensar que isto não tem limites. A informação que Bob Woodward terá decidido realmente não publicar não aparece no livro de todo. Será o livro totalmente cândido?

Dificilmente. O autor não se pode dar ao luxo de aparecer perante os seus interlocutores como um adversário irredutível. com o qual o compromisso não seja possível. Ele tem que gerir cuidadosamente a sua imagem, tal como os políticos, para conseguir um bom compromisso entre credibilidade e acesso.

As coisas realmente más sobre a administração Bush II não serão sabidas por meio de Bob Woodward. Mas aquelas que sabemos, com este incrível pormenor, já são muito interessantes.

Algumas reflexões

Bob Woodward não oferece informação sobre as motivações, mas porquê tanto frenesi sobre o Iraque? Em 2001 o Iraque era um país esmagado pelas sequelas das guerras, pelas sanções económicas, os constantes bombardeamentos, as inspecções da ONU, a opressão brutal de Saddam. Constantemente vigiado por uma bateria de satélites e aviões espiões, o regime acachapado no seu reduto e com zero espaço de manobra, dificilmente teria iniciativa de atacar os EUA através de terrorismo com armas de destruição massiva. Seria puro suicídio.

Qual era o problema dos neoconservadores? Não era um problema, era antes um programa e um pretexto.

O programa era o unilateralismo, a execução de uma política imperial com rotura de todas as limitações das organizações internacionais, o uso da sua vantagem militar esmagadora como alavanca para obter a submissão total dos poderes concorrentes, nomeadamente a União Europeia. De uma posição de primeiro entre iguais que tem gozado até agora, os EUA tornar−se−iam virtualmente donos do mundo.

O melhor pretexto para fazer uma demonstração parecia ser naturalmente o Iraque, país inicialmente perigoso mas meio destruído e dono, ainda por cima, de 8% do petróleo mundial.

Por certas declarações ameaçadoras que foram feitas à Síria na primeira fase da ocupação do Iraque, quando o optimismo era total, parece que o plano era passar do Iraque para a Síria, invadindo−a a partir da fronteira com o Iraque ou forçando−a a expulsar o Hezbollah. Com a Síria na mão, o Líbano e a Jordânia perdiam qualquer margem de manobra e terminava o isolamento militar de Israel. Um plano totalmente descabelado, é claro!

Chegou−se mesmo a falar no ataque ao Irão!

Essa visão, já se sabia, é simplista, provinciana e subestima a complexidade do mundo actual − e levou ao desastre.

Veja−se o que se passou na Palestina: anos de ataques frenéticos de Bush, Condelezza e Ariel Sharon a Yasser Arafat e à OLP, cercando−os e reduzindo sistematicamente a sua margem de manobra e credibilidade, acabaram por conduzir a uma maioria fundamentalista islâmica, legitimada pelo voto, no governo da Autoridade Palestiniana. Bem podem limpar as mãos à parede, com a merda que fizeram!

Se hoje tudo pudesse ser resolvido por meios militares, a vantagem norte−americana seria completamente esmagadora. Mas hoje cada vez menos coisas podem ser resolvidas por meios militares (ver na nota de leitura de Battle Ready, de Tom Clancy, uma discussão sobre novos usos para o poder militar americano).

Tradicionalmente, na política norte−americana a divisão é entre os intervencionistas e os isolacionistas. A maior parte das instituições supranacionais mundiais foram criadas por administrações intervencionistas. Os intervencionistas costumam ser aderentes do multilateralismo, essencialmente porque compreendem a complexidade do mundo.

Desta vez, os profetas da intervenção militar vêm dos círculos tradicionalmente isolacionistas − a direita do partido republicano. Quer dizer, essas pessoas não partem de uma base cosmopolita, de uma cultura atenta às complexidades do mundo actual, mas de uma base ideológica que nunca se interessou por essas complexidades, sempre as considerou aberrações e provas do aspecto inferior de tudo o que não é americano.

Curioso é o argumento de Colin Powell, ao avisar George Bush II das consequências da invasão do Iraque: "Vai tornar−se o orgulhoso proprietário de 35 milhões de iraquianos." Aplicava−se, dizia ele, a teoria da loja de loiça: Se partires, tens de comprar!

O fracasso da ocupação do Iraque, desse ponto de vista, é uma necessidade. Para além de toda a boa vontade, o sucesso dessa empresa não traria nada de bom para o resto do mundo.

Nada disto, é claro, está no livro de Bob Woodward. (TOPO)


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