O Codex 632

José Rodrigues dos Santos

Colombo e a sueca

O conhecido jornalista e locutor da RTP aborda neste seu romance de fundo histórico e criptográfico (parece que não é o seu primeiro, mas é o primeiro que eu li) a questão da nacionalidade de Cristóvão Colombo, deixando o leitor convencido que o grande navegador afinal não era genovês, mas sim português.

O género tem conhecido grande incremento em todo o mundo, a partir do sucesso do Código de Da Vinci, de Dan Brown. José Rodrigues dos Santos mantém-se fiel à receita do mestre: em primeiro lugar, localizar uma polémica histórica com interesse para o cidadão comum, em que, devido a novos documentos e novos pontos de vista, se possa conceber um volte−face das opiniões estabelecidas sobre o assunto. No caso de Dan Brown era a identidade de Jesus Cristo; neste caso é a nacionalidade de Colombo.

Sobre este tema cria-se um romance, misturando a aventura da descoberta da verdade, escondida em documentos misteriosos, contra uma conspiração sinistra, com acção, sexo e perigo. Se for possível, com qualquer pretexto, meter ao barulho a Santa Inquisição, os Templários, os Rosa−Cruzes e a Cabala, mais uns enigmas que o herói vai decifrando ao longo do livro, tanto melhor...

Do ponto de vista puramente literário, não me parece que este seja um grande romance; no entanto é um livro fácil de ler, que fornece imensa informação sobre um tema histórico muito interessante. Com os seus quase cem mil exemplares, tem o condão de interessar numa polémica essencialmente cultural milhares de leitores que nunca queimariam as pestanas nos áridos livros científicos.

O historiador escondido com a pesquisa de fora

Hei-de escrever mais sobre este assunto, mas para já devo dizer duas coisas: Em primeiro lugar, o autor teve um comportamento oportunista, ao escamotear, nas fontes citadas, os investigadores históricos portugueses autênticos que têm vindo a propor, com cada vez mais insistência, a tese da nacionalidade portuguesa de Colombo.

O destaque devia ir para Mascarenhas Barreto, que de entre várias obras, publicou um livro cujo título diz tudo: "Cristóvão Colombo, Espião ao Serviço de D. João II". Este investigador dedicou uma vida a este assunto e os seus livros são citados quase ipsis verbis por JRS − mas mereceu apenas uma desonesta menção do seu nome, entre uma dúzia e meia, sem qualquer referência bibliográfica.

De facto, quando acabei de ler o livro, estava perplexo: o livro em si, não me pareceu nada de especial, mas a pesquisa histórica que lhe subjaz surpreendeu−me pela sua extensão, qualidade e profundidade. Custou-me muito a crer que um jornalista amador de História, de resto com uma vida atarefadíssima como apresentador do Telejornal e professor universitário, pudesse ter levado a cabo tal tarefa, em poucos meses ou anos. Pareceu−me mais a obra de uma vida. Fui à Internet saber o que se passava, e claro que encontrei logo os amigos de Mascarenhas Barreto, furiosos com a injustiça de que este fora vítima.

Não vou, por isso, discutir a tese da nacionalidade de Colombo nesta nota de leitura, porque acho que o devo fazer à volta do livro de Mascarenhas Barreto, quando o encontrar.

Uma sueca que incomoda muita gente...

Em segundo lugar, soube de uns zunzuns no diz-que-diz e na Internet sobre as cenas de sexo do livro, nomeadamente sobre uma sueca que alicia o herói do romance, afirmando que queria fazer uma sopa de peixe com o leite das suas (dela) mamas.

Um romance destes tem que ter cenas de sexo, tal como um cozinhado tem que levar temperos. Não vejo qual é o problema. Será que ainda somos assim tão puritanos? A não ser que esses zunzuns tenham a ver com uma tentativa de descrédito das teses históricas propostas no romance, por parte de certos profissionais estabelecidos de História, postos em causa nas suas posições − ou falta delas.

Enquanto puderam ignorar os investigadores que propunham uma nova tese, provavelmente fizeram-no. Só que agora a polémica explodiu-lhes na cara, sob a forma de um romance popular de grande sucesso. Vá de desacreditar o romance, tentando atingir assim o trabalho dos historiadores que Rodrigues dos Santos se limita a usar.

Honestamente, não posso afirmar tal coisa, claro, mas posso desconfiar... Muita tinta ainda vai correr sobre este assunto. (TOPO)


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