Bilhete de Identidade

Maria Filomena Mónica

Uma intelectual portuguesa confessa-se

Não é vulgar os portugueses autobiografarem-se, nem é vulgar eu ler autobiografias. Mas eu tinha visto esta senhora uma vez ou duas na TV e gostei do seu estilo um pouco agreste, pouco public-relations e muito pensamento, poucas palavras inúteis e muito no-nonsense.

Dado que ela é só dez anos mais velha que eu, antecipava-se, nessa autobiografia, um percurso desde o passado salazarista, passando pelos turbulentos anos 60 e culminando na Revolução de Abril.

Isto, do ponto de vista de uma mulher, prometia ser interessante. Interessante, sem dúvida. Mas diferente. Não surge aqui o Portugal que eu conheci, mas outro, visto por uma jovem inicialmente católica de boas famílias, frequentadora da boa sociedade lisboeta e de Cascais.

É uma história notável. Bela e inteligente, MFM sente-se tão apertada como qualquer outro português na sociedade em que nasceu − ou mais que muitos. Procura o seu caminho, impondo o seu percurso contra as expectativas que lhe traçavam: arranjar um bom partido e casar.

Em vez disso, a autora interessa-se por filosofia e procura o amor, frequenta os mais conhecidos intelectuais da nossa praça (e dorme com alguns), enfrenta as difíceis mas apaixonantes opções de quem viveu a adolescência nos anos 60.

Descreve, é claro, os seus amores, casamentos e filhos, o percurso académico que a levou a Inglaterra enquanto muitos de nós andavam de punho erguido e a fugir à polícia.

Uma vida cheia, uma vida interessante que resolveu partilhar connosco. Enriqueceu a minha perspectiva sobre a sociedade em que vivo e sobre algumas pessoas que nela moram. (TOPO)


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