Baudolino

Umberto Eco

O pai do romance histórico moderno ensina como se faz

Qual Dan Brown, qual carapuça! Este é o mestre, o que nos ensinou a gostar deste género de coisas, com O Nome da Rosa, O Pêndulo de Foucault, A Ilha do Dia Antes. Profundamente inserido no mundo cultural europeu, especialista da Idade Média, Eco traz sempre às suas obras um sabor inconfundível a coisa autêntica.

Os livros de outros autores, ao falar de épocas históricas, dão-me muitas vezes a sensação de falta de profundidade, de esquematismo, de emprestar ao pensamento das personagens a desenvoltura dos nossos dias, à falta de compreender verdadeiramente o mundo em que se moviam. Eco não. Ele conhece profundamente as fontes, os textos coevos, sabe como certos conceitos que para nós hoje são meras figuras de estilo, como por exemplo o Céu e o Inferno, eram para as pessoas de outrora coisas reais.

Talvez eu esteja predisposto a fazer esta distinção devido às circunstâncias da minha vida. De facto, eu ainda vivi, na minha infância, numa sociedade que os mitos dominavam a vida das pessoas. Falo, evidentemente, das construções religiosas que governavam decisões do dia-a-dia, como a esperança de uma recompensa ou castigo na morte, ou a crença na intervenção dos santos na vida diária.

Está aberto à discussão saber-se se hoje não somos ainda governados por mitos, embora de uma forma diferente.

Eu creio que somos, mas os nossos mitos são criticáveis e mais sujeitos a deixar-nos compreender os factores que realmente governam as nossas decisões que antes. Mas é uma questão de grau, não uma questão de tudo ou nada.

Claro que compreender como os mitos governavam as pessoas noutra sociedade em que eles são muito mais aparentes aos nossos olhos críticos, torna−nos também porventura mais críticos para os nossos mitos hodiernos.

Imaginação, alucinação, fantástico

Nos romances de Umberto Eco o mundo mental da época retratada tem sempre lugar de destaque. N'O Nome da Rosa o lugar era a Lombardia, a época a Alta Idade Média, os actores monges de um convento, de uma forma ou de outra ligados aos livros e à sua interpretação. Um possível Livro do Riso, de Aristóteles, era o tesouro que todos procuravam ou temiam.

À volta do enredo, aprendemos a forma como a Idade Média compreendia as fontes clássicas que transmitiu à cultura moderna, no meio de polémicas incessantes sobre a forma do mundo, se Cristo teria possuído a sua túnica (e portanto os padres poderiam possuir fortuna), sobre a lealdade ao papa ou ao imperador (do Sacro Império Romano-Germânico), etc. E ainda somos presenteados com um curso extensivo sobre todas as heresias e seitas que pululavam pela Europa, sempre sob a sanção da fogueira.

Bem, se o leitor apenas viu o filme, perdeu tudo disso, mas ganhou a imagem do Sean Connery a fazer de frei Bernardo de Baskerville. Na verdade foi um dos melhores papéis que este actor já fez.

Agora, em Baudolino, estamos na Baixa Idade Média e descemos da Lombardia para a Ligúria, no começo da Península Italiana. E também levantámos voo em relação à realidade. Aqui os mitos são reais, mesmo que sejam evidentemente mentira. Baudolino é um personagem extraordinário, um criador de mitos. Ele inventa as histórias mais descabeladas, mas é tão convincente que acaba por acreditar nelas e chega mesmo a visitar os lugares que imaginou e a encontrar (ou defrontar) as criaturas fantásticas com que sonhou.

Estamos imersos num mundo estranhíssimo. Tão cedo acompanhamos as intermináveis campanhas da guerra entre Guelfos e Gibelinos como presenciamos discussões renhidas entre criaturas monstruosas sobre a natureza da Santíssima Trindade; atravessamos o Sambatyon, rio de pedras que separa a Ásia do Paraíso Terreal, encontramos o Prestes João e o Santo Graal, voltamos para Constantinopla e estamos no meio da investida dos cruzados contra esta cidade.

É como se estivéssemos delirantes, metade do tempo alucinados, a outra metade em contacto com a realidade − e quase sempre sem saber se estamos a delirar ou não.

Mas o ponto é este: trata-se do mundo mental de um habitante da Baixa Idade Média. Para ele não havia diferença. Era tudo real.

Que parte do mundo que nós outros consideramos real é alucinação? Boa pergunta...

O talento de mentir

Praticamente todo o livro é uma longa narração de Baudolino a Niceta, um romeu (grego do Império Romano do Oriente), durante o cerco e saque dos cruzados a Constantinopla. Quando Baudolino acaba a história e se vai embora, Niceta pergunta-se o que fazer, publicá-la ou suprimi-la. Um amigo aconselha-o a suprimir Baudolino e todas as partes fantásticas: "[...] querias meter na cabeça dos teus leitores que existe um Gradal lá em cima, no meio das neves e do gelo, e o reino do Prestes João nas terras perustas? Sabe-se lá quantos loucos não se poriam a errar por aí sem descanso, durante séculos e séculos." Niceta protesta que é uma bela história e que é pena que não venha a ser contada. Responde o outro:

"Não te julgues o único autor de histórias deste mundo. Mais tarde ou mais cedo há-de haver alguém, mais mentiroso que Baudolino, que a contará." Assim Eco alude a si próprio, no fim do livro, como uma espécie de assinatura irónica. Ou então ri-se de toda a corja de malucos que ao longo dos séculos foram tecendo essa incrível teia de fantasias e delírios que é a tradição esotérica.

Em vez de levar a sério essa tradição e abusar da credulidade do leitor moderno, pouco informado mas fascinado por mistérios antigos, Eco explica neste romance, creio eu, o processo de criação desses mitos. Como, de resto, já escarnecia de forma impiedosa de todas as patéticas seitas esotéricas nesse seu fabuloso O Pêndulo de Foucault.

A linguagem é fantástica. Há palavras em grego, latim, alemão, textos em italiano arcaico da Ligúria, ainda por cima cheios de erros de ortografia, linguagens inventadas. Tiro o meu chapéu ao tradutor, porque faz um excelente trabalho. Este foi sem dúvida um texto dificílimo de traduzir e J. Colaço Barreiros conseguiu manter em português a extraordinária série de invenções e citações que Eco fez na versão original. (TOPO)


Feeds do meu blogue