Outras notas de leitura:
"Battle Ready", de Tom Clancy "Plan of Attack" de Bob Woodward "Baroque Cycle" de Neil Stephenson "O Codex 632" de José Rodrigues dos Santos "Bilhete de Identidade" de Maria Filomena Mónica "Baudolino" de Umberto Eco

Battle Ready
Tom Clancy
Sidgwick & Jackson,
Oxford, 2004, 452 p.
FNAC, Forum Almada, 09/05

Battle Ready

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2 págs. A4)

Battle Ready

Tom Clancy / Gen. Tony Zinni (Ret.) / Tom Koltz

Bio/autobiografia do general Tony Zinni

Um general de Marines americano descreve a sua vida, desde o baptismo de fogo no Vietname, nos anos sessenta, até ao comando do CENTCOM, estrutura militar operacional responsável pelo Iraque, entre 25 outros países.

Tem vários pontos muito interessantes:

A experiência de combate, como conselheiro militar junto dos fuzileiros do Vietname do Sul, é muito viva e original, centrada no terreno e em operações de pequenas unidades, patrulhas e pelotões − discutida do ponto de vista de um oficial combatente.

Faz-me lembrar que, na realidade, sei pouco sobre a Guerra do Vietname.

Sendo um livro de Tom Clancy, é claro que abundam os pormenores técnicos difíceis de encontrar noutro lado, desde o armamento à filosofia pessoal das tropas, passando pela logística, planeamento, comando e controle e informações.

Zinni afirma que, como conselheiro militar, não se sentia habilitado a dar qualquer conselho aos sul-vietnamitas. Eram tropas experimentadas e o conselheiro era um oficial recém-formado. O que ele tinha na mão era o acesso à artilharia, à aviação frontal e à informação operacional americanas.

Depois do Vietname, à medida que o biografado sobe na hierarquia militar, discute-se extensivamente filosofias de treino, estratégias para a utilização dos Marines e a organização de unidades cada vez maiores, desde as primeiras companhias de atiradores que Zinni comandou até aos gigantescos Corpos Expedicionários de Marines, compreendendo várias unidades de fuzileiros, artilharia, blindados, a sua própria marinha, força aérea e serviços de apoio.

Os estados-maiores

Visto que Zinni serviu no EUCOM (comando operacional da Europa, África e Médio Oriente, em Stuttgart) e no CENTCOM (comando operacional do Golfo Pérsico, Paquistão e Afeganistão, países muçulmanos da ex-União Soviética e Corno de África, sedeado em Tampa, Florida), estas estruturas muito sofisticadas de comando do poderio militar americano são discutidas em pormenor, o que constitui uma surpresa para mim, que não sabia ou não tinha prestado atenção à sua existência.

Zinni fornece imensos detalhes e uma visão de conjunto sobre as atribuições destes grandes estados−maiores, como a execução de planos gerais de operações antecipadamente criados para alguns possíveis conflitos (ataques aéreos ao Iraque, invasão do Iraque, defesa da Coreia, retiradas de civis de embaixadas, etc.) – e a enorme actividade diplomática destes comandantes junto dos países clientes da zona, por vezes mais profunda, mais constante e até mesmo divergente da diplomacia tradicional do Departamento de Estado e das suas embaixadas.

Dá-se grande destaque a duas grandes operações em que Zinni participou: a operação de socorro dos curdos em fuga na fronteira montanhosa entre o Iraque e a Turquia, na sequência da primeira Guerra do Golfo. e que acabou por levar à criação de uma zona libertada curda no Norte do Iraque, e o desembarque na Somália, este comandado por Zinni. Diz ele que correu tudo muitíssimo bem, até que entregou a pasta à ONU e foi mandado para outro comando. Acusa os dirigentes políticos e militares da ONU na Somália de incompetência, por terem provocado um conflito com os senhores da guerra que levou à morte alguns americanos (no famoso episódio do helicóptero) e de vários milhares de somalis (talvez 10 000).

Operações diferentes da guerra

Reflectindo sobre a sua experiência com este tipo de operações, Zinni propõe uma redefinição das missões das forças armadas, em que cada vez menos as operações são para matar e escavacar (missão tradicional de guerra), e cada vez mais para oferecer segurança, impedir conflitos ou para acção humanitária. Chama-lhes OOTW (Operations Other than War, Operações Diferentes da Guerra). Diz que os militares se devem preparar para este tipo de actividades e não pensar só nas suas actividades tradicionais.

Na sua opinião, os estados-maiores resistem a esta ideia, como um colega seu que teria dito: Homens a sério não fazem OOTWs! O que eles querem diz ele, é voltar a travar a II Guerra Mundial, matar e escavacar até à rendição final dos maus da fita. Azar, diz Zinni, o único dirigente suficientemente estúpido para se deixar levar para esse cenário era o Saddam Hussein.


 

O homem reformou-se e o comando do CENTCOM foi para o general Tommy Franks, que, já na Administração Bush II, levou a cabo a II Guerra do Golfo, uma brilhante operação de matar e escavacar que se transformou rapidamente numa enorme OOTW que os americanos não estavam minimamente preparados para levar a cabo. No seguimento dessa incapacidade, a situação no Iraque evoluiu para a clássica guerra anti−subversiva (COIN − counterinsurgency) sem futuro político ou militar − em suma, um novo Viename.

Curiosamente, diz Zinni, enquanto no CENTCOM deu-se conta dos problemas enormes que poderiam surgir se o regime de Saddam caísse e começou a criar um plano de contingência para uma gigantesca operação humanitária e de segurança a executar nessa eventualidade. O plano não estava completo quando ele saiu, mas diz que o gen. Tommy Franks o meteu na gaveta.

Sendo assim, a incapacidade das forças americanas como ocupantes do Iraque tem mais a ver com cegueira deliberada do que com ignorância ou ingenuidade. O plano de ocupação do Iraque e de criação de uma autoridade administrativa foi criado pela administração, um cozinhado de imposições políticas com muito pouca atenção às realidades do terreno, mas com imenso espaço para assegurar o controle do petróleo pelos americanos e para chorudos negócios para certas empresas fornecedoras de serviços militares, como a Halliburton (ver a nota de leitura de Plan of Attack, de Bob Woodward).

Resta dizer que se trata de um livro inteiramente pró-Tony Zinni. O general parece estar inteiramente satisfeito consigo próprio e não é Tom Clancy quem vai dizer o contrário. Quaisquer defeitos que tenha o biografado não virão a ser conhecidos pela leitura deste livro. (TOPO)