Battle Ready

Tom Clancy / Gen. Tony Zinni (Ret.) / Tom Koltz

Bio/autobiografia do general Tony Zinni

Um general de Marines norte−americano descreve a sua vida, desde o baptismo de fogo no Vietname, nos anos sessenta, até ao comando do CENTCOM, estrutura militar operacional responsável pelo Iraque, entre 25 outros países.

Tem vários pontos muito interessantes:

A experiência de combate, como conselheiro militar junto dos fuzileiros do Vietname do Sul, é muito viva e original, centrada no terreno e em operações de pequenas unidades, patrulhas e pelotões − discutida do ponto de vista de um oficial combatente.

Faz-me lembrar que, na realidade, sei pouco sobre a Guerra do Vietname.

Sendo um livro de Tom Clancy, é claro que abundam os pormenores técnicos difíceis de encontrar noutro lado, desde o armamento à filosofia pessoal das tropas, passando pela logística, planeamento, comando e controle e informações.

Zinni afirma que, como conselheiro militar, não se sentia habilitado a dar qualquer conselho aos sul-vietnamitas. Eram tropas experimentadas e o conselheiro era um oficial recém-formado. O que ele tinha na mão era o acesso à artilharia, à aviação frontal e à informação operacional americanas.

Depois do Vietname, à medida que o biografado sobe na hierarquia militar, discute-se extensivamente filosofias de treino, estratégias para a utilização dos Marines e a organização de unidades cada vez maiores, desde as primeiras companhias de atiradores que Zinni comandou até aos gigantescos Corpos Expedicionários de Marines, compreendendo várias unidades de fuzileiros, artilharia, blindados, a sua própria marinha, força aérea e serviços de apoio.

Os estados-maiores

Visto que Zinni serviu no EUCOM (comando operacional da Europa, África e Médio Oriente, em Stuttgart) e no CENTCOM (comando operacional do Golfo Pérsico, Paquistão e Afeganistão, países muçulmanos da ex-União Soviética e Corno de África, sedeado em Tampa, Florida), estas estruturas muito sofisticadas de comando do poderio militar americano são discutidas em pormenor, o que constitui uma surpresa para mim, que não sabia ou não tinha prestado atenção à sua existência.

Zinni fornece imensos detalhes e uma visão de conjunto sobre as atribuições destes grandes estados−maiores, como a execução de planos gerais de operações antecipadamente criados para alguns possíveis conflitos (ataques aéreos ao Iraque, invasão do Iraque, defesa da Coreia, retiradas de civis de embaixadas, etc.) – e a enorme actividade diplomática destes comandantes junto dos países clientes da zona, por vezes mais profunda, mais constante e até mesmo divergente da diplomacia tradicional do Departamento de Estado e das suas embaixadas.

Dá-se grande destaque a duas grandes operações em que Zinni participou: a operação de socorro dos curdos em fuga na fronteira montanhosa entre o Iraque e a Turquia, na sequência da primeira Guerra do Golfo. e que acabou por levar à criação de uma zona libertada curda no Norte do Iraque, e o desembarque na Somália, este comandado por Zinni. Diz ele que correu tudo muitíssimo bem, até que entregou a pasta à ONU e foi mandado para outro comando. Acusa os dirigentes políticos e militares da ONU na Somália de incompetência, por terem provocado um conflito com os senhores da guerra que levou à morte alguns norte−americanos (no famoso episódio do helicóptero) e de vários milhares de somalis (talvez 10 000).

Operações diferentes da guerra

Reflectindo sobre a sua experiência com este tipo de operações, Zinni propõe uma redefinição das missões das forças armadas, em que cada vez menos as operações são para matar e escavacar (missão tradicional de guerra), e cada vez mais para oferecer segurança, impedir conflitos ou para acção humanitária. Chama-lhes OOTW (Operations Other than War, Operações Diferentes da Guerra). Diz que os militares se devem preparar para este tipo de actividades e não pensar só nas suas actividades tradicionais.

Na sua opinião, os estados-maiores resistem a esta ideia, como um colega seu que teria dito: Homens a sério não fazem OOTWs! O que eles querem diz ele, é voltar a travar a II Guerra Mundial, matar e escavacar até à rendição final dos maus da fita. Azar, diz Zinni, o único dirigente suficientemente estúpido para se deixar levar para esse cenário era o Saddam Hussein.


 

O homem reformou-se e o comando do CENTCOM foi para o general Tommy Franks, que, já na Administração Bush II, levou a cabo a II Guerra do Golfo, uma brilhante operação de matar e escavacar que se transformou rapidamente numa enorme OOTW que os norte−americanos não estavam minimamente preparados para levar a cabo. No seguimento dessa incapacidade, a situação no Iraque evoluiu para a clássica guerra anti−subversiva (COIN − counterinsurgency) sem futuro político ou militar − em suma, um novo Viename.

Curiosamente, diz Zinni, enquanto no CENTCOM deu-se conta dos problemas enormes que poderiam surgir se o regime de Saddam caísse e começou a criar um plano de contingência para uma gigantesca operação humanitária e de segurança a executar nessa eventualidade. O plano não estava completo quando ele saiu, mas diz que o gen. Tommy Franks o meteu na gaveta.

Sendo assim, a incapacidade das forças americanas como ocupantes do Iraque tem mais a ver com cegueira deliberada do que com ignorância ou ingenuidade. O plano de ocupação do Iraque e de criação de uma autoridade administrativa foi criado pela administração, um cozinhado de imposições políticas com muito pouca atenção às realidades do terreno, mas com imenso espaço para assegurar o controle do petróleo pelos norte−americanos e para chorudos negócios para certas empresas fornecedoras de serviços militares, como a Halliburton (ver a nota de leitura de Plan of Attack, de Bob Woodward).

Resta dizer que se trata de um livro inteiramente pró-Tony Zinni. O general parece estar inteiramente satisfeito consigo próprio e não é Tom Clancy quem vai dizer o contrário. Quaisquer defeitos que tenha o biografado não virão a ser conhecidos pela leitura deste livro. (TOPO)


Feeds do meu blogue