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Uma noite entre os lutadores

Sexta-feira, 7 de Abril de 2006

Nunca tinha ido a um espectáculo de luta, nem tinha especial vontade de ver um. Eu sou o tipo mais pacífico que existe. Se tropeço com uma luta, penso logo em passar ao largo. Mas acontece que o meu amigo e colega Pedro Caramelo, um dos organizadores, arranjou bilhetes e insistiu muito para que os colegas fossem ao Cine−Teatro de Corroios ver uma noite de combates de Full Contact. Na verdade tinha−me esquecido inteiramente do assunto e já estava em casa, quando o Paulo (outro colega) me telefonou a dizer que ia lá. Não tinha nada que fazer e já ouvira o Caramelo falar tanto dos seus pit bulls do Ginásio Clube que acabei por ir.

A assistência fez−me lembrar os meus tempos de dirigente de uma associação popular. Os mesmos homens antigos de fartos bigodes, grandes olheiras e beata ao canto da boca, os rapazes com um ar meio bravio meio perdido, as garotas, enfim, também meio bravias, meio perdidas. Camadas que, tenho a impressão, se socializam mal noutros meios mais elegantes mas que aqui se sentem perfeitamente à vontade.

O ritual

Dá-lhe!

Estava meio à espera de ver uma coisa rasca, mas saiu−me um espectáculo quase religioso, uma representação misteriosa e primitiva assumida com grande dignidade.

Estavam ali dois homens (começaram com dois miúdos, depois foram apresentando pares cada vez mais poderosos) a defrontar−se, numa violência ritualizada.

Entravam no ringue saudados como gladiadores. Logo ali, o público, se não era da claque de nenhum, fazia as suas escolhas, ligava−se emocionalmente a algum deles, decidia lutar com ele aquela luta, decidia também lutar contra o outro.

Os gestos dos assistentes do lutador fazem parte do espectáculo. Despem-lhe o roupão ou camisola, calçam as botas e as protecções, umas palavras confiantes ao ouvido, uma palmada no cachaço, tudo com um carinho viril e grave, enquanto os atletas ensaiavam poses de luta, talvez a interrogar o corpo e o espírito se estão prontos para aquilo.  Topo

Homem contra homem

Espreitando o adversário enquanto o árbitro inspecciona o equipamento, alguns mostram já o olhar do combatente: uma frieza atenta, a concentração total à procura dos pontos fracos onde atacar, a tentar perceber os perigos de que é preciso defender−se. Outros, em subtis maneirismos, parecem mostrar já propensão para a derrota.

Sob esta capa ritual, contida, disciplinada pelos valores partilhados nos gestos de saudação e sob a vigilância dos árbitros, sente−se já a violência primitiva de milhares de anos de culturas humanas que sempre celebraram o combate.

O confronto começa. Fascina−me a oscilação dos humores entre os adversários. Um agride, o outro defende−se, a seguir os papéis trocam−se, mas quem se intimida? Há uma contagem muito técnica dos juízes. Quem tocou, quem se esquivou, em que sequência se deram os golpes. Eu não faço ideia nenhuma, nem me interessa muito. Ignoro o aspecto técnico e concentro−me na luta.

Na verdade, aquilo é mesmo uma luta. Ganha−se por fazer sofrer o adversário para além da sua coragem, por se ser capaz de sofrer sem perder a coragem.

Dois bois à marrada na campina, dois gatos nos telhados, dois jovens num ringue de Corroios. Estamos nisto há milhões de anos, não vamos mudar tão cedo. Em qualquer dos casos, tanto na campina como nos telhados ou aqui, o vencido não é morto, nem sequer seriamente ferido. Aqui em Corroios, até o saúdam, dão−lhe um diploma. Mas o punho levantado em vitória é o do vencedor, não há volta a dar−lhe.

Amanhã, às oito da manhã, este herói pode ter de ir ser mais um num emprego qualquer, como todos nós, mas hoje é o vencedor. Ninguém pode tirar−lhe isso. A glória de ter lutado, de ter sofrido e de ter vencido. E nós, no público, pedimos emprestados esses sentimentos.  Topo

Todos por um

O público é outro espectáculo. Os atletas lutam em silêncio, completamente sós na sua concentração, no seu sofrimento e na sua determinação, mas o público perde a cabeça. O público é uma fera a uivar de agressividade. Um homem está possesso. Debruçado do balcão, gesticula com o rosto vermelho, repete: "Dá−lhe, caralho!, dá−lhe, caralho!"

Não se cala, mas é apenas um entre muitos. Aquilo é pessoal. Aquilo é sofrido. Não é como no futebol. Ali no ringue, é um homem a dar porrada noutro. Um sou eu, o guerreiro escondido que todos temos dentro de nós, agarrando a oportunidade de lutar; o outro simboliza tudo o que odeio e que me irrita.

Como o fogo a arder na fornalha, exprimem−se aqui sem perigo emoções profundas e violentas, não menos humanas por serem tão sombrias e animais. Noutro lugar, talvez, seriam extremamente perigosas para as pessoas e para a sociedade; aqui libertam−nos. O nosso coração das trevas é alimentado para não se tornar demasiado perigoso.  Topo

Um por todos

Os celebrantes coroam os novos heróis, agradecem aos vencidos terem−se oferecido para o sacrifício. Amanhã, talvez sejam eles os novos heróis. A catarse colectiva chega ao fim. O público aplaude com entusiasmo, de coração mais leve, talvez purgado de venenosos humores.

Sim, senti uma espécie de celebração religiosa. Não dessa religião palavrosa a que estamos habituados, mas uma coisa mais forte, mais profunda, mais tribal. Em símbolo, um homem foi sacrificado, o outro matou−o. Em símbolo, nós que participámos na cerimónia, também matámos e morremos. E com isso ficámos mais vivos.

Nesta cerimónia não precisámos de deuses, porque celebrámos apenas a nossa humanidade assumida.  Topo