Feeds
do meu blogue

As casas da minha infância

No Verão de 2005, dei um passeio ao mesmo tempo pelo Algarve e pela minha memória. À distância dos meus (então) 52 anos, as imagens de infância começam a ter um aspecto um pouco nebuloso. Referem-se a um mundo que já desapareceu em muitos dos seus aspectos materiais e culturais. Só a memória resta.

Eu mudei; o mundo mudou. As imagens ligadas à minha infância vão ficando gastas e pobres, puídas pelo uso. Os lugares e as coisas desapareceram ou transformaram-se. Daí a vontade de visitar os vestígios, de com as imagens de agora consertar as memórias antigas.

Nunca fui, e espero não estar a tormar-me saudosista. Pelo contrário, tenho uma consciência aguda das mudanças a que assisti durante a minha vida, mudanças que desejei quase sempre veementemente. Coisas más aconteceram, sem dúvida, mas o pior de tudo teria sido não acontecer nada.

Estrada do Alportel, Faro, Verão de 2005
Nasci em Faro, perto da Estrada de Alportel, que em 1953 devia ter em pé só as casas da esquerda. Mas não me lembro de nada, pois saí daqui com poucos meses

Nasci de um parto caseiro numa casa sem um único electro ou gasodoméstico, mesmo sem água canalizada ou energia eléctrica. Os meios de transporte disponíveis eram os pés e uma bicicleta pedaleira. Os meus pais tinham a quarta classe. A rádio era escassa e censurada; ouvir rádios estrangeiras era proibido. Os jornais não penetravam muito na camada popular a que eu pertencia; de resto eram também censurados. A tuberculose, a poliomielite, a varíola e a malária ainda matavam. A religião era obrigatória, coerciva e vigilante. Tenho na verdade boas razões para não ser saudosista.

O Algarve onde nasci era uma província sonolenta e atrasada, agrícola e piscatória, com apenas um pouco de indústria. A paisagem era quase toda rural. Para viajar alguns quilómetros fazia-se planos com antecedência, escrevia-se cartas, enchia-se malas e sacos.

Hoje há quase uma cidade contínua entre Sagres e Vila Real de Santo António que se atravessa em pouco menos de uma hora, num capricho. O isolamento provinciano deu lugar a uma das zonas mais cosmopolitas do mundo, coberta de cartazes em inglês, francês e alemão.

Quem diria que, apesar disto tudo, as minhas casas estão ainda todas de pé? É um autêntico milagre!   Topo

Estrada do Alportel, Faro. A casa onde nasci
É a casa amarela ao cimo das escadas. Cá em baixo, na Estrada do Alportel, a taberna

Um lugar desconhecido

Ao resolver ir ver se estavam de pé as várias casas onde vivi a minha infância, sentia-me mais curioso por uma de que não tenho qualquer memória, precisamente a casa onde nasci.

Iam comigo a minha mãe e a minha tia Beatriz, uma autora, a outra ajudante desse parto caseiro em 10 de Julho de 1953. Se não fossem elas, eu nunca encontraria a pequena casa térrea num pátio, ao cimo de umas escadinhas transversais à Estrada do Alportel, em Faro.

A casa não tinha água nem luz. Também não havia tais coisas no lugar de onde vinham os meus pais, sítio do Ribeiro, Boliqueime, a 25 quilómetros dali. Mas o meu pai tinha passado em Lisboa 10 anos, onde, a seguir à tropa, se alistou na polícia.

O sítio não é bonito. Uma daquelas franjas urbanas onde se fixavam transitoriamente os migrantes rurais à procura de melhor vida na cidade. A Estrada do Alportel era então a principal entrada norte de Faro. Possivelmente a taberna que ainda está ao fundo das escadas era um ponto importante de paragem para quem vinha de carro de mula, de burro, de bicicleta a pedal ou na camioneta (os automóveis ainda eram muito raros). A minha tia Beatriz diz que se lembra de ir à taberna pedir água para o parto.

Esta casa não faz parte das minhas memórias de infância. Dela sabia apenas o que ouvi contar, e muito pouco. Por exemplo, soube que nevou no Outono de 1953 (só voltou a nevar no Algarve em 2006). Deve ter sido muito perto da mudança para a casa seguinte, em Faro.

As imagens actuais servem então para eu construir uma pseudo-memória do lugar onde nasci. Mas eu sei que, como noutros lados, a zona deveria ter um aspecto bem diferente.   Topo

Rua da Boavista, Faro
Morei numa das casas do lado esquerdo, mas não sei qual
Rua da Boavista, Faro
Ainda se conversa e brinca na rua como há 50 anos

Uma rua popular

Ao progredir um pouco na Polícia e convencendo-se que não ia ser transferido brevemente para outra cidade, o meu pai arranjou casa melhor e mais central em Faro, com água, luz e um quintalito, numa rua agradável.

A rua da Boavista fica entre as igrejas do Carmo e de S. Pedro, numa zona popular de casas baixas e pequenas. Vivi lá entre os poucos meses e os três anos. Está quase igual, se descontarmos os muitos carros estacionados agora nos passeios − e tudo parecer muito mas pequeno do que nas minhas imagens mentais.

A rua tem uma particularidade: um degrau alto, uma espécie de plataforma de pedra do lado esquerdo de quem sobe, onde os vizinhos se sentavam a conversar, o que parecem fazer ainda hoje.

Nós vivíamos do lado sem degrau, numa casa térrea pequenina, com uma porta e uma janela para a rua. Mas não consegui saber qual era a casa. A minha mãe interrogou várias pessoas, a ver se ainda conhecia alguém, mas não chegou a nenhuma conclusão. No fim de contas, viveu lá três anos há meio século e já nem se lembra do número da porta.

Recordo um sítio feliz, noites de Verão com toda a vizinhança sentada na rua, os adultos a conversar e a rir e os garotos a brincar em liberdade, porque o trânsito era muito raro. Mas não me lembro de ninguém em especial.

O único electrodoméstico que havia em casa era um rádio Telefunken enorme, que tinha um olho mágico, uma válvula com uma luz verde que se acendia lentamente.

Numa rua perto morava a minha tia Teresa. Lembro-me de ir para casa dela quando o meu irmão teve sarampo. Mas eu já estava contagiado e tive também.

A memória mais vívida desse período é precisamente a mudança para Loulé. Eu fiz uma grande birra porque queria viajar no camião das mudanças, mas não me deixaram. O meu irmão é que foi com o meu pai. Tenho a imagem do camião, um Atkinson amarelo sem a grelha da frente e com o radiador à vista. Fui com a minha mãe na camioneta de carreira, ainda amuado. A imagem de uma rua de Faro vista da janela da camioneta, com uma guarda metálica cromada em forma de onda na janela, ficou impressa para sempre.  Topo

Loulé, Largo Tenente Cabeçadas
É a casa amarela. Em primeiro plano a minha mãe
Loulé, Largo Tenente Cabeçadas
Topo do largo (nascente). O convento dos Caetanos foi restaurado e é sede de uma cooperativa. O arco gótico mantém-se, claro. A Camionagem Louletana era no edifício cinzento da esquerda

Cinco anos em Loulé

Arco gótico em ruínas O meu pai foi promovido a subchefe e colocado no posto de Loulé, em 1956. A casa do largo Tenente Cabeçadas tinha um corredor central, o quarto dos pais e a sala de estar na frente, atrás uma sala de jantar onde só se comia em ocasiões especiais e o quarto dos filhos, a seguir uma cozinha e uma casa de banho já com acesso pelo quintal. Daqui subia uma escada exterior para o terraço, com uma arrecadação onde a certa altura eu escondi a minha colecção de banda desenhada (esta era considerada uma influência nociva pelas Autoridades Educativas).

O grande progresso técnico em casa foi a chegada do fogão a gás (mas não ainda do esquentador).

O largo começa a poente como uma rua, mas sobe e alarga-se para nascente, formando um triângulo calcetado sem qualquer decoração ou mobiliário urbano, com muito espaço para brincar. No topo desse triângulo, o convento dos Caetanos, então em ruínas, e um arco gótico também em ruínas. Eu passava muito tempo na Camionagem Louletana, conversando com os mecânicos e condutores que às vezes me deixavam sentar nas cabinas dos camiões Volvo e Scania cinzentos. Ainda hoje sei desenhá-los de memória.

Uma vez montaram no largo uma exposição itinerante sobre a Nato; outras vezes eram carrinhas das campanhas de vacinação ou do rastreio antituberculoso.

Ao fundo do largo havia um café, o Retiro dos Arcos, onde vi o aparecimento da TV. De tempos a tempos, o dono vinha com uma vassoura correr com a garotada (eu incluído, claro), que se pespegava à frente do televisor mas não consumia nada.

Atrás da minha casa começou a ser construído um hospital (hoje centro de saúde). A obra fascinava-me. Eu passeava sozinho pelo meio dos pedreiros que metiam betão nas cofragens, subia aos pisos em construção por rampas de madeira. Ainda não havia preocupação com a segurança.   Topo

Rua Eça de Queirós, n.º 10, Faro
É a casa cor-de-rosa, porta da direita

Passagem por Faro

O ano de 1961 foi conturbado para a minha família. Ao fim de cinco anos em Loulé, o meu pai foi transferido para Faro. Havia o receio de ele ser mobilizado para Angola (os polícias foram as primeiras forças usadas contra a insurreição), mas acabou por ser colocado em Ferreira do Alentejo. A família não o acompanhou, porque ele pretendia ficar no Algarve, o que conseguiu pouco depois, em Portimão.

Durante esse tempo, menos de dois anos, vivemos na rua Eça de Queirós. Era uma casa relativamente grande, um pouco sombria e húmida. Havia uma bananeira no quintal que estava sempre a apodrecer. Nas traseiras o quintal tinha porta para um saguão, onde saíam de uma sarjeta ratazanas gigantes, o que proporcionava grandes caçadas e esperas com paus e pedras.

Para mim o mais importante nesta segunda estada em Faro não é a casa onde vivi, mas o contacto com o mar e com a ria. Fascinavam-me todos os tipos de barcos acostados na doca, as salinas, os destroços apodrecidos no lodo. Desenhei muitas vezes uma barcaça decrépita, o Chora. O cheiro a maresia, que muitos detestam, agrada-me. Esse cheiro acompanhou-me em Portimão.   Topo

Rua de Monchique, 27, Portimão
A casa está vazia há 10 anos e em muito mau estado

Portimão

Gaivota Em Portimão fomos viver para o primeiro andar de uma casa antiga, na rua de Monchique, 27. Tinha um terraço nas traseiras, com vista para umas hortas. O terraço tinha um desenho caprichoso com aberturas para os quintais dos vizinhos de baixo. As conversas de quintal eram muitas.

De resto, a privacidade era reduzida, pois através das tábuas carunchosas do soalho passava o som, o cheiro e − em certos lugares onde havia frestas − a vista. De cada vez que havia um sismo, mesmo ligeiro, as muitas fendas e rachas do edifício multiplicavam-se ainda mais.

Já havia frigorífico e esquentador, mas TV só muito mais tarde.

À frente o largo Gil Eanes, hoje urbanizado com relva, bares e um parque infantil mas que na altura era um grande terreiro onde se fazia, uma vez por mês, a feira do gado. Do outro lado do largo, a estação de caminho de ferro. A rua de Monchique era muito movimentada, com uma passagem de nível depois da qual a rua se passava a chamar estrada de Monchique.

Do outro lado do rio Arade moravam os meus padrinhos, na estação do Parchal. Pouco depois de virmos para Portimão, vieram os meus tios António e Beatriz, com os meus primos Celestino e José António. A minha tia era guarda da passagem de nível da estrada de Lagos, a 200 metros. Portanto, o enquadramento familiar melhorou.

Em Portimão encontrei-me com a adolescência e com os anos 60. Mistura explosiva. Chegou a música dos Beatles (Love Me Do), a rádio FM, o programa Em Órbita, os jeans e o cabelo comprido, as mini-saias. O apelo do sexo, as primeiras paixões, a chegada do turismo que estoirou a letargia provinciana do Algarve. O mundo a mudar vertiginosamente.

Miradouro da Praia da Rocha
O Miradouro da Praia da Rocha fica a 500 m do meu antigo liceu
A minha mãe e a minha tia Beatriz
A minha mãe, então com 89 anos, e a minha tia Beatriz, com 82, acompanharam-me nesta viagem à minha infância e ajudaram-me com as suas memórias

No Verão de 1969, tinha eu 16 anos, ainda não tínhamos TV. Lembro-me de ir a casa de uma vizinha às duas da manhã ver Neil Armstrong poisar na Lua − e de discutir acaloradamente com pessoas que achavam que aquilo era uma montagem. Eu sabia do que falava. Era maluco pelo espaço e tinha já uma biblioteca pessoal de várias dezenas de livros de ficção científica!

A consciência política, com o assassínio de John Kennedy, a Guerra Colonial e a do Vietname, as discussões no liceu, a Rádio Argel, o choque com a PIDE. As clivagens eram radicais, a nível cultural, político, intelectual, religioso. À mesa havia discussões furiosas sobre se o homem descendia do macaco ou não.

Nos nove anos que lá morei, Portimão passou de cidadezinha sonolenta a metrópole turística. Os trabalhadores conserveiros que passavam à minha porta às centenas de bicicleta, na maioria mulheres, empregaram-se no turismo. As grandes fábricas onde trabalhavam ficaram em ruínas e acabaram por ser substituídas por apartamentos, supermercados e restaurantes. O betão armado não fez muito bem à cidade, mas hoje ela parece recuperar um pouco.

E tenho que dizer que o sítio é fantástico para se morar. As zonas marinhas, com barcos, salinas e o cheiro a lodo de que eu gostava em Faro, não faltavam. As praias são fabulosas, como toda a gente sabe. Quando faltava um professor no liceu, dava-se um salto à praia da Rocha, a 500 metros! E no Verão aparecia toda a espécie de malucos com quem era fascinante meter conversa, arranhando inglês. E as mulheres...

Saí dessa casa em 1971, com 17 anos, para estudar em Lisboa e não mais voltei a viver no Algarve. O meu pai viveu lá até falecer em 1981, a minha mãe mudou-se para as Cardosas, a 500 metros, há 10 anos*. O senhorio obrigou-a a sair porque queria fazer um prédio moderno, mas entretanto a casa lá está, vazia e decrépita.   Topo


* O texto foi escrito em 2005. A minha mãe veio a falecer em 2016, quando faltavam 15 dias para fazer 100 anos.