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Este texto tem sido muito difícil de escrever. Representa o fruto de penosas reflexões pessoais de vários anos. De um lado, a constatação de que os mecanismos de consciência social são extremamente limitados e os meios de acção política, se alguém quiser agir para melhorar a sociedade em que vive, são muito fracos. Perigosos também, porque não sabemos se fazemos bem ou mal. A consciência individual também não é grande coisa. Não falo de saber se é de dia ou de noite, ou de saber se dois e dois são quatro, falo da extraordinária cacofonia que reina na cabeça de cada um de nós, em que mitos de origem duvidosa são artigos de fé, discursos de engrandecimento pessoal ou de miserabilismo doentio justificam os nossos actos diários, grandiosas decisões são tomadas num dia e esquecidas no dia seguinte.

Há tempos tive contacto com novos dados no domínio das ciências sociais. A Teoria da Mente, a psicologia evolucionária. E voltei a repensar isto tudo. Vi consternado as filas de peças de dominó a tombar e a dirigirem-se para um sítio muito incómodo. Mas o pensamento é compulsivo, não podemos des-pensar aquilo que já pensámos.

Não gosto do sítio onde cheguei. Os problemas são piores do que eu pensava e as soluções mais difíceis do que tinha alguma vez imaginado. Pior ainda, não tenho qualquer autoridade científica para discorrer sobre estes assuntos.

Ajuda-me tu, leitor, pode ser que eu tenha feito asneira da grossa, o que seria um alívio. Mas não me parece. A minha experiência diz-me que as verdades são difíceis de engolir e que os problemas complicados não têm soluções simples. Assim seja.

Biostase

Todos nós, para sobrevivermos, temos que manter em equilíbrio imensas variáveis. Algumas são muito intolerantes a curto prazo, como a entrada de oxigénio. O oxigénio tem que ser garantido, minuto a minuto, toda a vida. A tolerância não passa de alguns minutos. Água, alimento, pressão atmosférica, temperatura, são apenas um pouco mais tolerantes.  Muitas outras coisas são necessárias. Na verdade, ainda hoje não sabemos exactamente tudo de que precisamos.

Como todos os seres vivos, apreciamos quando não há outros seres vivos tentando almoçar-nos. Apreciamos também quando outros seres vivos que fazem falta à nossa dieta deixam que nós os almocemos. Não esquecer que hoje em dia a maioria dos bichos que nos querem "comer" são invisíveis a olho nu e que para mantê-los em respeito é preciso um sistema auto-imune tão feroz que às vezes morde o dono. Muitos dos bichos que almoçamos ou nos ajudam a almoçar são também unicelulares.

Até o coração, não nos dá cuidado até que… Descobri outro dia, a falar com o meu irmão, que o coração é uma máquina electroquímica comandada pelas leis do caos. Eu pensava que era comandado pelo cérebro, mas não. Há corações muito antes de haver cérebros. De acordo com a matemática dos génios do caos, Mendelbrot, Lorenz e outros, não há qualquer garantia de que a próxima batida do nosso coração aconteça. É improvável, mas coisas improváveis acontecem.

Açúcar no sangue, vitaminas, aminoácidos, centenas ou milhares de coisas precisam de estar disponíveis, na proporção certa, na hora exacta, outras centenas ou milhares de coisas têm de ser eliminadas na hora certa, ou então o malabarista deixa cair as bolas e o espectáculo termina.  [Voltar ao topo]  [Voltar ao índice]

As rédeas e o chicote

A nossa espécie tem tido sucesso, povoou o nosso planeta como uma praga, exterminou ou levou à beira da extinção todos os predadores de topo de todos os eco-sistemas (com excepção dos insectos, bactérias, fungos e vírus). Reconfigurou muita da flora e fauna do planeta para servir as suas necessidades. O grande inimigo a vencer para a sobrevivência da nossa espécie (para além, talvez, dos organismos unicelulares) é, como é evidente, ela própria.

Podemos confiar nos nossos mecanismos de biostase. Só podem ser os melhores, como é próprio de uma espécie de sucesso. A solução para controlar todas estas variáveis não pode depender da nossa mente consciente. Isso exigiria de cada um de nós a capacidade de gestão de todo o staff de uma multinacional. E ao menor descuido…

A solução, pelo contrário, foram sempre os mecanismos automáticos de regulação. Nem damos por muitos deles. Ao nível celular,  há células que de repente “descobrem” que precisam de certos componentes. Desencadeiam acções que “encomendam” esses componentes da corrente sanguínea. A bioquímica desses processos é extremamente complexa — e eu sei tão pouco sobre isso que é melhor estar calado.

Outros processos de regulação da vida exigem que o organismo no seu todo aja para garantir o equilíbrio. A carência de nutrientes nos tecidos provoca a secreção de um tal componente que desencadeia uma sequência de eventos que… nos faz sentir cheios de fome. A fome mobiliza os recursos do organismo para garantir alimento: procura, ataca, pedincha, rouba, planeia, aprende, espera… Tudo o que seja necessário para apagar a sensação incómoda nas entranhas.

Para regular os seus comportamentos, os organismos usam, entre outros, o mecanismo do prazer e da dor. Fome é sofrimento, matá-la é prazer. Se tivermos torcido um tornozelo, a dor impede-nos de piorar a situação, apoiando o peso nessa perna. O desejo sexual manifesta-se por ansiedade, a sua satisfação por prazer.

O outro grande instrumento de controle das acções dos organismos são os instintos. Os instintos dos outros animais são perfeitamente claros para nós, mas custa-nos a admitir que muitos dos nossos comportamentos pretensamente racionais, como no amor, na política ou na guerra, são instintivos. Só nos últimos anos a antropologia lançou luz sobre estes problemas.

Os instintos regulam acções que, ao longo da evolução da espécie, foram sendo seleccionadas e se revelaram úteis para a sua sobrevivência. Penso que muitas vezes é o instinto que estabelece o como, mas é o mecanismo de prazer-dor que determina o quando. Como quando usamos as rédeas e o chicote para controlar uma mula.  [Voltar ao topo]  [Voltar ao índice]

A mamã é que sabe

Ao longo desse interminável drama de sofrimento e luta que nos traz até aos dias de hoje, não parece ter sido necessário que saibamos o que se passa. Somos tratados sem qualquer cerimónia pelos nossos mecanismos reguladores. Qualquer dano nos nossos tecidos é saudado com uma dor cruel. Não há forma de desligarmos o alarme. “OK, já percebi que entalei o dedo! Podes parar com isso?”

Não dá. O sistema está configurado para não acreditar no nosso bom senso. E possivelmente com razão.

Com respeito ao comportamento instintivo, a nossa resposta consiste em justificá-lo. Tal como um indivíduo a quem, durante uma sessão de hipnose, foi dada uma ordem pós-hipnótica para, por exemplo, baixar as calças e mostrar o rabo quando ouvisse um apito. Finda a hipnose, o apito é accionado e ele baixa as calças. Se lhe perguntarem porque fez tal coisa, inventa uma justificação qualquer, porque não tem consciência de uma agência a manipular a sua vontade. Foi ele que decidiu fazer aquilo!

Desde a Antiguidade, milhões de poemas, cantos, peças de teatro, quadros, esculturas, romances, filmes, tratados glosam o amor, a guerra, o patriotismo, o amor maternal, paternal e filial, sem praticamente mencionarem o carácter instintivo desses comportamentos.

Grande beleza foi produzida em tanta arte, sem dúvida, mas quanto ao fundo, todos esses discursos provavelmente não passam de justificações de comportamentos instintivos.

Imagino que a nossa inteligência emergiu num outro processo, ligada à linguagem e à competição dentro do grupo e com outros grupos. Aquilo que consideramos o nosso eu, o protagonista do pensamento consciente, tem pouca influência sobre a administração da nossa vida. Durante a evolução do córtex cerebral e dos seus mecanismos de linguagem, conceptualização, interacção e imaginação, os mecanismos instintivos e de regulação de vida que herdámos das espécies nossas antepassadas foram, penso eu, largamente deixados em paz, ou evoluíram no seu próprio caminho.

Esse personagem que vê o filme da consciência, elabora sobre a memória vivida e mantém a noção de identidade, ou seja, o eu, gosta de pensar que é o realizador do filme. Mas os seus poderes são limitados. Metade do tempo, aquilo que pensa serem decisões suas são imposições de mecanismos instintivos de que não tem consciência. Outras vezes, o carácter errático e caprichoso das suas decisões pouco pode contra a agenda implacável dos processos automáticos de regulação da vida, agenda essa imposta com as poderosas armas da dor e do prazer, da ansiedade e da euforia.

Por isso as dietas têm um sucesso muito limitado.  [Voltar ao topo]  [Voltar ao índice]

Podemos fazer alguma coisa?

Se aceitamos que muito do que somos escapa aos poderes do eu e que este está muito pouco consciente do que se passa connosco, podemos desanimar e pensar que não há esperança de resolvermos qualquer dos nossos problemas, desde o nível individual ao da espécie, através de decisões do eu.

Como em qualquer intervenção na vida real, o que se pode fazer é determinado pelo conhecimento da realidade. Se temos de consertar um carro, precisamos de aprender mecânica automóvel. Esse conhecimento ensina-nos a fazer um diagnóstico e a determinar uma pequena acção com o resultado desejado. Isso reduz a nossa liberdade, sem dúvida, porque ficamos a saber que não adianta nada desatar à martelada ao carro, o que talvez nos apetecesse mais. Mas se o diagnóstico nos indica que é preciso mudar as velas e as mudamos, podemos voltar a ter carro, o que talvez aumente a nossa liberdade…

Não adianta nada lamentar-nos sobre o lado animal que nos domina nem chorar sobre a nossa limitada consciência. Isso é que são reacções irracionais, como andar à martelada ao carro.  Interessa descobrir se a “culpa” é das “velas” e como substituí-las.

Por exemplo, fenómenos de discriminação e exclusão social como o racismo e a xenofobia foram largamente controlados nas sociedades mais avançadas. Podia-se pensar que esses comportamentos, de origem instintiva, seriam impossíveis de controlar. Mas o que se passou foi que através da difusão de um discurso inclusivo ( memes1) a maioria dos indivíduos adquiriram consciência de pertencer a um grupo nacional ou local inclusivo (“Tenho orgulho em ser português e os portugueses não são racistas”) ou à própria espécie (“Somos todos humanos, qualquer que seja a cor da pele”). Curiosamente, uma pessoa racista ou xenófoba tende agora a ser excluída, porque ameaça a paz social e por isso põe o grupo em perigo…

Abolir os mecanismos da defesa do grupo que produzem o comportamento xenófobo teria sido muito difícil e, eventualmente, perigoso. Mas foi possível reconfigurá-los.

Portanto é possível agir. Como e em que direcção é um problema ético e político a que me dedicarei mais à frente. Agora temos que considerar uma perspectiva histórica.  [Voltar ao topo]  [Voltar ao índice]

Uma visão histórica

Aparência

Fora dos reguladores das funções metabólicas, que suponho terem-se mantido essencialmente os mesmos, as condições da manutenção da vida da nossa espécie mudaram muito.
Numa espécie gregária como a nossa, a sobrevivência do indivíduo depende da do grupo, mas também a sua própria sobrevivência individual depende da sua posição no grupo. Incluindo a transmissão dos genes, claro. O grupo é uma organização relativamente sólida e pode viver muitos anos, mas os seus membros vivem em condições muito precárias.

Desde sempre isso foi verdade, mesmo antes da Revolução Neolítica. Os comportamentos instintivos, expressos individualmente, manifestam-se em duas grandes frentes: os tendentes a defender o grupo, como o patriotismo, a xenofobia e o instinto guerreiro; e os tendentes a defender o papel do indivíduo no grupo, como a adulação do líder, a competitividade, a criação de alianças, a agressividade individual e a sedução. Talvez a coscuvilhice seja um velho instinto, para assegurar que alianças imprevistas não surpreendam o indivíduo. Ligados a estes comportamentos instintivos de defesa da posição no grupo, há também os que procuram garantir a continuidade genética, como o amor filial e a lealdade aos parentes.

O indivíduo sente-se compelido pelo seu corpo a procurar comida para matar a fome. Ou sente-se compelido pelo choro dos filhos a arranjar-lhes alimento. Mas matar a fome passa pelo grupo. Quer a família tenha mais autonomia, quer o grupo tenha preponderância, as oportunidades de matar a fome dependem da posição de cada indivíduo no grupo. A carne de caça é partilhada de acordo com costumes determinados, que variam de tribo para tribo. Os vegetais também.

Os nossos instintos manifestam-se sempre num enquadramento social. Quero dizer, a cada instinto que se manifesta no indivíduo corresponde uma componente cultural, uma tradição, um tabu ou uma religião que o regula. Não se deve ver o comportamento instintivo como uma coisa de "baixo nível" sem relação com as ideias e as manifestações sociais. Pelo contrário, trata-se de um edifício contínuo, com as suas bases solidamente ancoradas nos instintos individuais e colectivos, sobre as quais se erguem elaboradas construções culturais e ideológicas. Se os instintos ao nível individual procuram assegurar a sobrevivência do indivíduo e dos seus genes, os seus prolongamentos sociais procuram regular os comportamentos para a sobrevivência dos grupos e do seu património genético.

As condições da sobrevivência de quase todos os indivíduos da nossa espécie, quer antes e durante o período pré-histórico quer na maior parte do período histórico, foram sempre muito precárias. O grande problema dos mecanismos de regulação da vida era evitar a morte, por fome, por doenças e infecções, por guerras e acidentes e mesmo, embora cada vez menos, por ataques de predadores. Os nossos corpos estão configurados para a fome e para o sofrimento e não para a abundância e para o lazer.

Os nossos mecanismos de armazenamento de gordura estão prontos para aproveitar rapidamente os breves períodos de abundância, de modo a aguentar melhor o período de penúria que se vai seguir.

Até um mecanismo tão contrário à sobrevivência do indivíduo como a depressão pode ter tido interesse do ponto de vista da sobrevivência do grupo. Numa sociedade onde nunca havia meios para todos sobreviverem, podia ser natural que os que tinham menos êxito, na caça, no amor, no cultivo, a lascar pedra ou na socialização ficassem tão tristes que se deixassem morrer sem incomodar os sobreviventes.

O que é característico do período histórico é que os mecanismos sociais de controlo do comportamento dos indivíduos, com o aparecimento de sociedades cada vez mais complexas, sofreram grandes transformações, tornando-se mais complexos, mais diferenciados e mais especializados. Dois grandes sistemas evoluíram da ordem tribal, o sistema estatal e legal e o sistema religioso.

Isto dito assim é forçosamente esquemático. Mas o conceito de lei abstracta e justiça abstracta existe desde Hamurabi e a religião organizada com uma classe sacerdotal própria existe pelo menos desde a Idade do Bronze. Em cada sociedade estes sistemas coexistiram e relacionaram-se das mais diversas maneiras. Mas a sua base sempre foi, e atrevo-me a dizer que continua a ser, o comportamento instintivo dos indivíduos.

Os sistemas míticos tribais, os deuses locais e naturais, as lendas e tabus evoluíram para grandes narrativas cosmológicas em que o céu era povoado por hierarquias tão complexas como as que se tinham formado na terra. Esse mundo imaginário partilhado por todos os membros da sociedade tornou-se também o grande regulador dos comportamentos individuais.

No culminar de uma acumulação de progresso técnico e de eficiências sociais em que a população e a esperança de vida aumentaram muito pouco, a Renascença representa a começo da independência do pensamento individual face ao imaginário colectivo. Daí não resultou nenhuma paz, como é natural, mas uma série de guerras religiosas. Como o imaginário religioso era essencial à regulação individual e social, qualquer desvio era perigoso e tinha de ser combatido. A imprensa aumentou muito a velocidade e o débito da difusão das ideias e provavelmente, no seu início, revelou-se uma arma de destruição massiva na Europa.

Mas do confronto entre sistemas imaginários resultou o seu gradual enfraquecimento. Com a revolução industrial e científica e a educação generalizada e os meios de comunicação de massas, as cosmologias religiosas entraram em crise. O comportamento dos indivíduos em sociedade passou a ser menos regulado por proibições e imposições religiosas, impostas muitas vezes a nível local ou paroquial, e mais por sistemas de ideias mais flexíveis e difusos sustentados pelos meios de comunicação de massa. A isso correspondeu também um acréscimo da importância da lei e da sua universalidade. Nasceram assim os conceitos de liberdade individual e de justiça universal. Entre o ter sido possível imaginar estes conceitos e a sua aplicação prática vai uma distância enorme, de que só percorremos uma pequena parte.

A difusão do conhecimento, a libertação da imaginação individual e a instrução geral, com a criação da actual tecno-estrutura, tiveram resultados espectaculares do ponto de vista que aqui nos interessa, a regulação da vida. A população multiplicou-se numa primeira fase e a esperança de vida aumentou muito. Os recursos à disposição de cada indivíduo cresceram de forma espectacular (se este progresso é desigual em várias partes do mundo, a tendência é positiva).

Qualquer ser humano da Terra pode já ter ou ambicionar uma longa vida, com boa saúde, tempo livre e liberdade para amar, gozo de entretenimento de qualidade, farto alimento para o espírito e muito pouca violência.

Porque é que é agora que os nossos problemas de sobrevivência parecem mais ou menos resolvidos ou em vias disso, que os nossos sistemas de equilíbrio de vida mostram perigosas limitações?  [Voltar ao topo]  [Voltar ao índice]

Boa vida...

É claro que não estamos construídos para a boa vida. Para uma parte da humanidade, a revolução tecnológica e científica que prossegue com um ímpeto crescente desde há perto de 200 anos trouxe a possibilidade de viver enfim com boa saúde e abundância alimentar e material. A vida hoje acessível à generalidade dos cidadãos dos países mais desenvolvidos está para lá dos sonhos mais loucos mesmo das elites privilegiadas de outrora. Isso é bom, claro.

A liberdade de que podem gozar os cidadãos destes países é também um fenómeno sem precedentes. Inclui a possibilidade de desfrutarem de todos os alimentos de todo o mundo todo o ano, de se vestirem como manda a fantasia pessoal, quase sem sofrerem pressão social conformista, de desfrutarem uma sexualidade livre sem se preocuparem com a reprodução, de viajarem para quase todo o mundo. Os cidadãos podem influir na administração política das suas comunidades. Os meios repressivos do estado sobre os indivíduos são severamente limitados.

Os indivíduos têm acesso a meios de alterar o seu comportamento e a sua percepção, como o álcool e várias espécies de drogas legais ou não. Cada pessoa tem à sua disposição grandes ferramentas para melhorar ou defender a sua forma física e mental, na forma de drogas, equipamento de desporto, conhecimento científico, organizações sociais.

O reverso da medalha? Manifesta-se de várias maneiras, desde a crise dos mecanismos de biostase individual até ao problema do aquecimento global. Mas o fundo da questão é o mesmo: os velhos automatismos não nos protegem nas novas situações, em que é preciso suplementá-los com uma gestão racional dos recursos.  [Voltar ao topo]  [Voltar ao índice]

Da obesidade ao aquecimento global

Ao nível da saúde, se bem que existam meios extraordinários à disposição dos indivíduos, estes encontram-se expostos a novos riscos de dimensão pandémica, geralmente chamados doenças de estilo de vida. Onde antes era necessário ingerir o máximo de comida possível para fugir à fome, hoje a comida disponível é ilimitada e os mecanismos de apetite têm de ser disciplinados pela vontade do indivíduo, estabelecendo os seus próprios limites para se proteger da obesidade, da diabetes, das doenças cardiovasculares. Onde dantes a quantidade de trabalho físico a realizar por cada indivíduo era tão grande que cada um estava sempre em perigo de gastar mais calorias que as fornecidas pela sua magra dieta, hoje o trabalho físico quase desapareceu de imensas profissões e da vida privada e as pessoas têm de inventar trabalho artificial, sem qualquer utilidade para além de manter os sistemas muscular e cardiovascular em forma. Em certas zonas dos Estados Unidos a esperança de vida começou a decrescer, após ter subido sem interrupção durante décadas. Culpados? A obesidade e outras doenças de estilo de vida.

Ao nível do nosso habitat, a ocupação do território tem crescido, ao longo dos séculos, de forma inteiramente natural, tão espontânea como a propagação de manchas de bolor no pão. Novos territórios eram ocupados, criando as suas infra-estruturas onde eram necessárias, de acordo com os recursos disponíveis, a economia e os meios de transporte existentes. Novos meios de transporte ou de exploração agrícola tornaram possíveis novas ocupações. As estradas romanas com os seus carros de bois possibilitaram o desenvolvimento de um império unificado. A navegação intercontinental iniciada pelos portugueses possibilitou novas colónias, processo muito acelerado pelos meios de transporte actuais. Mas se visualizarmos o crescimento de uma colónia humana ao longo do tempo, num filme acelerado, damo-nos conta que é um processo espontâneo e natural, como o crecimento de uma planta infestante.

Mesmo os modernos métodos de planeamento do território não vão muito mais longe. Procuram evitar que o desenvolvimento das colónias crie pontos de estrangulamento, criando infra-estruturas como ruas mais largas, linhas de caminho de ferro, auto-estradas, portos, aeroportos, redes de saneamento ou pontes. Outras vezes impedem que os tecidos urbanos se tornem inabitáveis, reservando parques ou limitando a construção. Podem chegar mesmo a implementar novo tecido urbano, criar novas cidades ou manipular o uso do território, mas essas intervenções um pouco mais racionais respondem às mesmas forças cegas e não podem controlá-las.

Ao nível da economia, o livre jogo das forças de mercado tornou-se uma máquina espantosa de criar riqueza, que só funciona se a máquina do estado mantiver a infra-estrutura jurídica e material, corrigindo ao mesmo tempo os excessos do sistema, quero dizer, impedindo que a livre concorrência leve ao monopólio, no topo da escala, e ao empobrecimento de largas camadas da população, na base. A criação da riqueza tem sido o motor que impulsiona o crescimento das comunidades humanas, de que falei atrás.

O sistema tem funcionado razoavelmente bem e toda a teoria económica actual defende a sua manutenção, mas requer um ingrediente que é cada vez mais difícil de assegurar: recursos naturais – espaço, matérias-primas, energia – ilimitados. Sem isso, atingidos os seus limites de crescimento natural, o sistema entra em crise, como se vê hoje com o princípio do fim do petróleo barato. Não vejo como podemos esperar a salvação da economia mundial confiando apenas nos mecanismos cegos dos mercados, governados por um sistema político que apenas exprime as mesmas forças cegas através de lobbies.

A mesma situação está em jogo com respeito ao aquecimento global, que mostra de forma dramática os limites físicos do nosso habitat e da energia que pode absorver. Retardar ou controlar o aquecimento global exige medidas racionais ao nível do indivíduo, das comunidades, dos países e do mundo, mas o processo de decisão defronta-se com um equilíbrio de Nash2: cada um dos membros do grupo sabe que, se agirem todos para o bem comum, todos serão beneficiados, mas, na incerteza de que tal acordo seja possível, cada membro age para seu benefício individual, assegurando assim o prejuízo de todos.

A estrutura comum a todas estas situações é que os sistemas de biostase que asseguraram o nosso sucesso até agora precisam de ser suplementados por uma gestão racional. Essa gestão prende-se quase sempre com o mesmo problema: adiar a gratificação ou alívio imediatos e concretos, em benefício de um ganho futuro, hipotético e antecipado.

A lucidez possível

O extraordinário sucesso da nossa espécie em assegurar a sua biostase (sim, porque o que temos agora são os problemas do sucesso) não teria possível sem a revolução científica. A ciência surgiu como um subproduto do conhecimento técnico, indivisível dele. A base de tudo isto é a curiosidade, possivelmente também um comportamento instintivo do Homo Sapiens Sapiens.

A curiosidade tem as suas leis. O tirano não pode, após ter-se rodeado de homens sábios e um pouco loucos que o ensinam a fazer boas fortificações, a limpar as latrinas dos acampamentos para os seus exércitos não serem dizimados por doenças ou a calcular as trajectórias da sua artilharia, impedi-los de também conjecturar o raio da Terra, investigar a origem da vida ou questionar-se sobre a pedra filosofal. O tirano tolera estas ideias loucas porque não pode matar a galinha dos ovos de ouro. As ideias úteis dos sábios são a vantagem competitiva que lhe permite manter a superioridade contra os seus inimigos. Bom, e se descobrirem a pedra filosofal, poderá fazer uma fortuna.

Muitas vezes também contagiado pela sua curiosidade, o tirano protege os seus sábios da intolerância dos padres, que percebem logo que o avanço da ciência irá refutar os seus mitos fundadores. Muitos padres, aliás, não se salvam do contágio. O virus é demasiado contagioso. É um meme. Prisões, torturas, processos da Inquisição, nada resulta. O culpado já difundiu as suas ideias. Outros as propagam em segredo. Outros as difundem protegidos pelos príncipes. Outros ainda as imprimem, em lugares onde os padres não podem intervir.

Numa época em que a informação circulasse mais devagar, em que não tinha tantos meios de se difundir, a perseguição teria resultado. Mas não na Europa do século XVI.

Cedo os cultores dos memes científicos se emanciparam dos príncipes, nas universidades também protegidas por autonomias. Organizaram o método científico, que estabelece os métodos aceitáveis para chegar à verdade. Os cientistas tornaram-se um novo corpo social, com o objectivo de manter a pureza do seu complexo memético, assegurar a sua difusão e defendê-lo dos seus inimigos. O seu sucesso foi extraordinário.

Durante 300 anos, a luta foi feroz, entre os defensores da tradição religiosa e os promotores da reorganização da sociedade à volta da indústria e da educação. Durante esse tempo, os cientistas, se bem que não tenham participado nas lutas enquanto tais, forneceram a munição ideológica, uma nova ideia do mundo. Essa ideia do mundo pervade toda a nossa consciência, desde as série do canal Odissey aos jogos infantis de ficção científica.

Mas o sucesso da ciência também sublinha as suas limitações. As grandes igrejas, se bem que tenham tido que recuar e adaptar os seus mitos em função do ataque lógico da ciência, foram pouco afectadas no seu veio principal: os seus fiêis são indiferentes à ciência e não querem saber como começou o mundo; interessam-lhes muito mais as mensagens afectivas que as suas religiões oferecem, as práticas de pertença social que realizam, a ética comum que promovem, o controlo social dos comportamentos individuais de que não desistem.

Portanto, a ciência não pode substituir a religião. Nem deve, dirão horrorizados os cientistas e os padres! O problema da religião, ou das religiões, é que, nas opções que discuti antes, em que uma gestão racional deverá suplementar os mecanismos bistáticos, a nível individual como social, as religiões têm actuado sistematicamente como forças anti-racionais. Isto não pode separar-se do problema da lucidez. Para se fazer uma gestão racional dos factores biostáticos, terá que partir-se da razão. Como atrasar os benefícios e as gratificações imediatas, em função de um benefício futuro, se não garantimos que esse benefício é real, com todos os instrumentos que a ciência põe à nossa disposição?

Dietas como prova de fé já se fizeram. Peregrinações também. Abstinência dos "prazeres deste mundo" não é novidade. Nada disso tem a ver com uma gestão racional dos factores biostáticos. No fim de contas, essas são intervenções tão irracionais como os automatismos naturais que vêm contrariar ou controlar, e muitas vezes mais destrutivas que eles.

Lucidez. Sem lucidez nada feito. Mas a lucidez é um produto de luxo. Milhões de pessoas preferem viver sem ela. Como difundi-la?  [Voltar ao topo]  [Voltar ao índice]

Que fazer?

Vou recapitular: ao nível do corpo, os mecanismos biostáticos são largamente independentes da nossa consciência, quanto mais da nossa vontade. Ao nível mental, a nossa consciência é largamente dominada por eventos instintivos com origem fora do seu domínio e influenciada de forma poderosa pelo prazer e pela dor, pela angústia e pela euforia, pilotados de fora do seu domínio pelos instintos e pela fisiologia. Grande parte das justificações que o eu arranja para os seus actos é falaciosa. Ou não foi ele que decidiu executá-los, ou sucumbiu a imposições poderosas fora do seu controlo.

Ao nível social, os discursos e organizações exprimem comportamentos instintivos de que, aqui também, os indivíduos possuem uma consciência muito limitada. Com toda a sua variedade ao longo da história e de lugar para lugar, as instituições são modeladas pelos comportamentos instintivos gregários da nossa espécie. Se encarado de um ponto de vista racional, o comportamento das instituições sociais –como o estado, os clubes, os partidos, as igrejas – e o dos indivíduos dentro delas, é absurdo, mas é perfeitamente claro quando considerado como comportamento instintivo gregário.

Do ponto de vista do habitat, da economia e do ambiente, o comportamento dos vários actores, do nível individual ao global, exprime a resultante de vários níveis de agregação de pressões cegas para responder a necessidades imediatas, com pouca capacidade de previsão, ou mesmo com muito pouca liberdade. A esse nível, as forças em jogo são tão cegas como a fome ao nível individual.

O próprio pensamento supostamente superior dos indivíduos, aquela parte que usa o córtex cerebral, permite manipular símbolos abstractos e processar informação em quantidades extraordinárias, não é racional. Toma formas ritualizadas, expressão de memes colectivos corporizados em organizações que exprimem, a nível social, velhos instintos gregários sociais. Como pode o pensamento controlar os comportamentos instintivos, se a sua própria lógica é controlada por eles?

Em todos esses níveis, temos de implementar ferramentas que tornem possível prever e agir, dominar os automatismos para poder adiar as recompensas e alívios imediatos em função de benefícios antecipados no futuro.

Não digamos que é impossível. Em vez disso, vamos tentar imaginar essas ferramentas.  [Voltar ao topo]  [Voltar ao índice]

Usar as ferramentas que existem

Não é possível fazer o Homo Sapiens Sapiens saltar por cima da sua própria cabeça. Aliás, as suas cabeças são o melhor que temos, de momento. Vamos então examinar as ferramentas que temos disponíveis:

• Ética — Começando pelos problemas ao nível da saúde dos indivíduos, a única forma de influir no seu comportamento terá de usar exactamente os instrumentos criados nas nossas culturas precisamente com essa função. Além disso a intervenção terá de assumir uma forma viral, pois de outro modo nunca se tornará relevante. Das formas sociais de controlo do comportamento dos indivíduos, a mais generalizável e a mais influiente é a convicção ética. Isso tudo é verdade, mas como assegurar que uma intervenção ética tenha uma base racional e seja sustentável? Quero dizer, uma vez que se tenha conseguido esse feito espantoso de criar uma ética nova que ajude os indivíduos a controlar de forma sábia os seus equilíbrios biostáticos, como garantir que essa ética não se esvaia rapidamente como fenómeno de moda ou entre em deriva semântica, perdendo o seu poder regulador?

• Actividade política — A actividade política será sempre indispensável para lutar por soluções para os problemas ambientais, económicos e globais, mas, a não ser que se invente uma forma nova de fazer política, parece pouco provável que se consiga fazer alguma coisa de jeito. Criar um novo lobby à volta desses problemas? Isso já foi feito com resultados fracos. Os múltiplos compromissos que os políticos têm que fazer, com a desculpa de conseguir soluções realistas ou possíveis, complicados com as suas aspirações individuais ao poder, fazem dissolver todas as boas intenções num lamaçal de promessas não cumpridas. As modernas democracias são na verdade aristocracias, em que os grupos com acesso à manipulação do voto (a classe política) governa de forma a garantir a expressão de todos os interesses relevantes — e esses são os que conseguem criar lobbies suficientemente poderosos. A situação só se consegue mudar se uma parte suficientemente grande dos cidadãos puderem impor a sua vontade. Mas isso remete-nos outra vez para o lado ddas soluções éticas. Só um movimento ético de massas pode tirar o grosso dos cidadãos da indiferença e fazê-los intervir em massa, de forma a desequilibrar o sistema aristocrático.

Para além de oferecer ao cidadão um meio de lutar por um mundo melhor sem ser alienado por utopias enganadoras, a criação de uma nova moral moderna poderia resolver dois problemas que afligem as sociedades modernas: a solidão no meio da multidão, de que falava Ortega y Gasset, e a ausência de valores. A decadência dos sistemas religiosos tradicionais deixou as modernas sociedades desamparadas de valores comuns pelos quais os cidadãos possam avaliar o seu procedimento com alguma confiança de estar a agir correctamente, sem soluções para combater a exclusão e o isolamento. Os mais fracos, já que ninguém puxa por eles nem lhes dá meios de puxarem por si próprios, caem num infantilismo individualista inteiramente destrutivo.

Noutro artigo vou, talvez, concretizar estas propostas.

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1 O conceito de memes foi desenvolvido por Richard Dawkins no seu livro "O Gene Egoísta" (Gradiva, 1999). Ao mesmo tempo que aventava a hipótese de que os seres vivos não passam de veículos para a sobrevivência dos seus genes, Dawkins atribuiu também às ideias e outros elementos de informação uma vida própria, replicando-se e difundindo-se de cérebro em cérebro, e chamou-lhes memes. Dawkins não aprofundou muito este tema, que foi retomado e desenvolvido por estudantes da teoria da comunicação e das redes. Para mais informação, pode ver a entrada na Wikipédia (em português) e um post sobre o tema no meu blog.  [Voltar ao texto]

2 Relativo ao trabalho do matemático americano John Forbes Nash sobre a teoria da negociação. Pode ver o equilíbrio de Nash na Wikipédia em português.  [Voltar ao texto]